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O valor da tradição
Se o clube é centenário, o torcedor enche a boca para falar de sua tradição. Se a família é quatrocentona o moleque estufa o peito para dizer o sobrenome. E tem até empresa apregoando na propaganda dez anos de tradição (?) em servir bem. O antropólogo, fascinado com a exótica cultura de uma tribo isolada fala da importância de se preservar a tradição cultural daquele povo. E assim, o que é tradicional fica parecendo bom, ou no mínimo, importante. Verdade que o respeito às tradições anda tão démodé quanto dizer démodé. Mesmo assim, o que sempre foi tantas vezes carrega consigo a idéia de que deveria continuar a ser. E por que deveria? Apenas por que sempre foi? Aqui comigo, não considero motivo suficiente. Acho muito melhor repensar toda tradição a cada tanto. Pois tudo muda e o que fazia sentido (ou parecia fazer) ontem pode não continuar sensato hoje. Acontece, às vezes, ser difícil abrir mão de certas tradições, mesmo quando elas já não servem mais. A identidade cultural, por exemplo, está ligada a valores e costumes que são transmitidos de geração a geração. Lendo Dreams from My Father, do Obama, encontrei essa questão no momento em que ele visita o Quênia, em busca das próprias raízes. Uma ex-professora de história da irmã queniana do agora presidente norte-americano (que frase horrível!) diz: “às vezes penso que a pior coisa que o colonialismo fez foi turvar nossa visão do passado. Sem o homem branco, nós poderíamos ser capazes de fazer melhor uso da história. Poderíamos olhar para algumas de nossas práticas antigas e decidir que valiam à pena serem preservadas. Outras, poderíamos avançar deixando para trás. Infelizmente o homem branco nos colocou na defensiva. Acabamos nos apegando a todo tipo de coisas que já deixaram de ser úteis” (tradução mequetrefe minha). A situação mais complicada de todas é quando a tradição está ligada à religião. O religioso não apenas recusa-se a refletir sobre as questões que envolvem sua crença, mas costuma tornar-se mais agressivo que fera defendendo cria se algum desavisado propõe alguma de repente – especialmente se a questão fizer muito sentido. Chega a ser curioso quando defendem a tradição como se fosse um valor em si. Se você questionar sobre uma sociedade onde a escravidão, o canibalismo ou a opressão à mulher são tradicionais talvez ouça algo como: bem, a tradição às vezes é uma coisa boa, outras vezes não. Ficando assim demonstrado: a tradição não tem valor intrínseco.
Escrito por Ana Mesquita às 21h34
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