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Injustiças
Semana passada uma amiga convidou para um chá. Estava uma delícia. No dia seguinte ela mandou por e-mail para minha irmã, que também tinha sido convidada, mas estava trabalhando e não pode ir, a foto do nosso brinde. Com proseco, não chá. Minha irmã respondeu: “Pena que não tenho uma foto minha de ontem pelas cinco da tarde pra mandar pra vocês, que vocês iam ver como o mundo não é justo!” De lá prá cá, sem mais motivo, pequenas e grandes injustiças foram chamando minha atenção, até que se acumulassem de tal forma que eu tinha que escrever sobre elas. Das mais banais, como um time de futebol jogar melhor e perder o jogo, às mais perversas, como a desigualdade de renda e de oportunidade saltando de repente aos olhos que já passam a maior parte do tempo sem ver, todas chegam como luminosos em Las Vegas, piscando em cores berrantes e clamando para serem notadas. A gota d’água foi uma notícia que acabei de ler: “Mulher que perdeu bebê em acidente é condenada por homicídio”. Uma corte de Dubai condenou a mulher, que freou para não bater no carro à sua frente, mas foi atingida pelos que vinham atrás, a pagar uma indenização de 5,5 mil dólares ao restante da família por ter perdido no acidente o bebê que esperava. O juiz baseou sua sentença na lei Islâmica e afirmou que os direitos dos bebês ainda no útero precisam ser defendidos. Ah, a religião... Como são hábeis esses juízes que se julgam divinos em injetar mais sofrimento onde o sofrimento impera! Antes da gota, o transbordamento já era iminente. O que encheu o copo foi um e-mail que recebi ontem, que listava, ilustrado por fotos, o gasto semanal de várias famílias ao redor do mundo com alimentação, começando por uma família alemã (quatro pessoas, quinhentos dólares por semana), passando por uma americana, italiana, mexicana, polonesa, egípcia, equatoriana, chegando à butanesa, de treze pessoas e que despende cinco dólares e três centavos para se alimentar por uma semana e culminando com refugiados do Chade que gastam um dólar e vinte e três centavos para alimentar a família de seis pessoas. E me perguntei se era necessária a volta ao mundo ou bastava olhar para a fartura da minha própria mesa e não virar o rosto ao ver o mendigo revirando o lixo em busca de alguma coisa para comer. Não sei que meandros da minha cabecinha nem sempre lógica fizeram de uma brincadeira que não deveria me levar além da minha adolescência e da música do Kid Abelha (“o mundo é muito injusto, eu dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer”) o assunto da semana. Não me peçam para explicar.
Escrito por Ana Mesquita às 16h58
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