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Desafio
Uma força que move muita gente. Tem quem se esforça para acumular fortuna, outros querem cultura, alguns buscam sabedoria, outros querem conhecer lugares. Gente que escala montanhas, mergulha nas profundezas, voa, salta ou surfa ondas gigantes. Os melhores desafios são aqueles que se mostram bastante difíceis, mas ao final podem ser vencidos. Basta ver como as crianças geralmente gostam de sentirem-se desafiadas na escola: quando fica fácil demais perdem o interesse. Por outro lado, se a dificuldade é tão grande que falham sem parar também se desmotivam. De quebra-cabeças a travessias, de autoconhecimento a fotografias, gosto de desafios. Quando resolvi tentar a travessia do Canal da Mancha, a graça era essa. Parecia quase impossível, muita gente duvidava, inclusive eu mesma em algumas ocasiões. E agora que a história vai finalmente ser publicada, e tive que ler e reler o que escrevi, ando pensando sobre isso. Às vezes fico com uma vontade enorme de arrumar outro desafio. Quem sabe correr uma maratona – como sou péssima corredora e sempre me machuco correndo, seria bem difícil. Ou, melhor ainda, fazer um Ironman. Pensando bem loucamente, poderia cruzar o Canal ida e volta ou nadar 24 horas – assim, depois de velha. São todas idéias malucas que estão completamente fora da minha realidade atual de nadadora-diletante-três-vezes-por-semana. Então, comecei a refletir: desafio mesmo, mais difícil do que qualquer um desses que eu adoraria tentar, é educar uma filha e estou diante dele agora. Por mais corriqueiro que seja – quase todo mundo tem filhos em algum momento da vida e bem ou mal os educa – não pode haver desafio maior. Ser capaz de impor limites sem perder a ternura, viver coerentemente seus valores e conseguir ensiná-los, preparar amorosamente seu filho para a vida e saber deixá-lo livre para seguir seu próprio caminho, tudo no tempo certo. Sendo mãe de uma adolescente tenho me sentido às vezes como o aluno esforçado diante de um assunto complexo demais: parece que toda a dedicação não traz nenhum resultado. Alguns desafios são opcionais. Ninguém me disse que eu precisava atravessar o Canal da Mancha (muito pelo contrário, aliás...), quando desisti na primeira vez nada me convenceria de que deveria morrer tentando e depois daquilo pensei que não tentaria de novo – e estava tudo bem. Com filhos é um pouco diferente. Podemos dizer que tê-los é opcional (pressões sociais e familiares à parte) e certamente no meu caso foi uma opção – desejei ser mãe com muito mais força que desejei atravessar o Canal da Mancha. Depois que nascem, no entanto, não se pode desistir de educá-los, até que cresçam são nossa responsabilidade, mesmo quando sentimos – o que costuma acontecer só mais tarde mesmo – que não estamos à altura da tarefa. Falhar, aparentemente, é quase uma certeza, basta ver como todos nós temos queixas de nossos pais, por melhores que tenham sido. Mesmo assim vamos tentando... *** Meu livro está no prelo e o lançamento vai ser dia 14/04 aqui em São Paulo (na Livraria da Vila da Fradique) e 24/04 em São José do Rio Pardo. Assim que estiver pronto, coloco o convite. Por enquanto, quem quiser ver a capa ou, quem sabe, encomendar, pode entrar no site da Livraria Cultura.
Escrito por Ana Mesquita às 12h15
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