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Hora roubada
Nem no que sinto a respeito do horário de verão consigo ser absoluta. Não gosto quando ele começa. Em primeiro lugar pela hora roubada. Se já sinto que o tempo evapora quando o dia tem vinte e quatro horas, um dia de vinte e três me parece insuficiente, para dizer o mínimo. Nos dias seguintes a sensação ainda é de tempo roubado e temos que estar atentos para não atrasar para algum compromisso. Cada olhada no relógio é um susto – já?! Fora isso, para quem acorda às seis da manhã como eu, há o inconveniente de voltar a despertar quando ainda está escuro, como se fosse inverno. O corpo demora mais um pouco para acordar, dá aquela preguiça...
E ainda assim eu gosto do horário de verão. Gosto de ver o sol nascer quase todo dia. Gosto de ainda ter luz do dia no começo da noite. Gosto quando parece que o tempo se estende ao entardecer – desde que esqueçamos o relógio. E gosto do calor muito mais que do frio, então, se a hora é de verão – mesmo que ele ainda não tenha chegado – está bom para mim.
A vida parece mais simples para aquelas pessoas que são capazes de dizer: gosto do horário de verão. Ou: não gosto do horário de verão. Sou de direita. Ou: sou de esquerda. Professo essa fé e estou certo de que é a verdadeira. Gente que gosta do mar ou da montanha, de ler ou de fazer esporte, de viajar ou de estar em casa. Não sei se de fato existe gente assim, tão preto no branco. Certamente conheço religiosos fundamentalistas e talvez esse seja um dos poucos campos em que o absolutismo ainda prospera. Pois na política, por exemplo, o terreno ficou (absolutamente?) movediço: o PPS apóia o DEM aqui, PT faz aliança com PSDB acolá. “Centro, esquerda, direita, o curso do discurso é igual” (de novo uma música do Quinta), e eis que descubro um lugar onde que eu gostaria que as coisas estivessem mais claras. Ou gostaria que o dinheiro não fosse o valor mais absoluto do nosso tempo, como sugere a música, mas para saber disso vão ter que ouvi-la inteira.
Está confuso. E eu gosto e desgosto da minha confusão. É desconfortável e trabalhoso, mas eu não gostaria de simplificar tudo, desprezar toda nuance e pronto. Gosto disso e daquilo. E gosto e desgosto de muitas coisas - horário de verão inclusive. Às vezes gostaria sim que tudo fosse mais simples, mas não quero uma visão simplista de tudo que é complicado.
P.S.: A música citada é Money, money, money e está no disco novo do Quinta que acaba de sair. Tem na Saraiva.
P.S.2: O que vai acontecer agora com os valores, quando o dinheiro se prova mais volátil que o próprio tempo e evapora como se não fosse mais que ilusão num show de mágica? Algum de vocês compreende os números que têm saído nos jornais, coisas como não sei quantos trilhões de dólares “desaparecendo” de um dia para o outro?
Escrito por Ana Mesquita às 13h55
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