Tem um supermercado bem perto da minha casa, a uns dez minutos de caminhada. Gosto de ir a pé. Porque detesto o trânsito (e assim evito o aborrecimento e não contribuo para piorá-lo), porque vou pensando na vida enquanto caminho e ainda poluo o ar um pouquinho menos. Quando preciso comprar poucas coisas, o que acontece na maior parte das vezes, já que somos só duas aqui em casa, trago as compras eu mesma. Quando a compra é maior, peço para entregarem e ainda assim vale para reduzir a emissão de carbono, porque nessa distância eles entregam de bicicleta. Acho perfeito.
Ontem eu precisava comprar algumas coisinhas. Peguei duas sacolas de pano, uma sombrinha, pois estava chuviscando, e fui, sentindo-me leve. Entrei no supermercado, peguei umas bananas, laranja, manga, leite, guardanapo de papel e fui para o caixa. A moça passou a compra, deu o valor e fui pegar a carteira na bolsa. Mas alguém me viu dizer que levei a bolsa? Tinha esquecido. Por isso estava tão leve! Precisei deixar tudo lá e voltar em casa para buscar.
Nem posso culpar a idade. Anos atrás (muitos!), bem mais de uma vez, me aconteceu de chegar ao clube para treinar, entrar no vestiário, tirar toda a roupa, abrir a mochila e só então perceber que tinha esquecido o maiô. Como pode? Geralmente esqueço a bolsa quando penduro alguma outra coisa no ombro. Não quero dizer que sempre que tenho uma sacola ou mochila esqueço a bolsa, mas se não tiver nada disso, a possibilidade de sair sem bolsa se reduz muito. Para o maiô, nem essa desculpa tenho. A coisa que mais esqueço é o celular e o mais engraçado é quando esqueço que não esqueci, como outro dia em que eu estava saindo, lembrei do celular, voltei para dentro para procurar, não encontrava e perguntei para a minha filha se tinha visto. Ela ia iniciando a busca quando encontrou... na minha mão! Tem algum doutor por aí para me dizer se essa doença tem cura?
Discordo dos meus amigos que acreditam que a Dilma era a melhor opção para o Brasil. Não discordo violentamente, mas discordo. Na área em que tenho mais elementos para análise, o esporte, acho que o governo Lula vai de mal a pior: dando prioridade ao alto rendimento e adotando o discurso de que o importante é a imagem que se projeta do Brasil lá fora, por isso devemos ser potência olímpica. Para mim, o importante é o que o país é de fato, não a imagem que projetamos, por isso não me interessa melhorar a classificação no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos enquanto nosso IDH continua péssimo. Está bem, dizem que 30 milhões foram resgatados da miséria absoluta, impossível não considerar isso um grande avanço. Mas, da forma como vejo o país hoje, acho que a concentração de renda continua, da pior forma possível: concentrada no sistema financeiro que, por causa da nossa taxa de juros estratosférica torna toda atividade produtiva no país coisa de gente idealista. Basta conversar com quem entende de empresa e de finanças para ouvi-los dizer que o capital é remunerado, sem risco e sem trabalho, aplicado no mercado financeiro – muito “melhor” do que pensar em produzir qualquer coisa. Pessoalmente não entendo muito dessas coisas, mas fico com a impressão de que, da forma como tem sido feita, a política social do PT não poderá se manter por muito tempo. Claro que, nem por isso, sou contra o programa de renda mínima (embora acredite que ele deva ser aprimorado). Talvez bastasse acabar com a corrupção e provavelmente haveria recurso para tudo, sem essa aberração de ver os bancos concentrando toda a renda do país.
Então, mesmo sem ter certeza absoluta de que fosse mesmo melhor, votei no Serra. Uma das coisas que me dava vontade de votar nele era ver petistas fazendo um julgamento pessoal sumário de quem votasse no Serra. Más pessoas, diziam muitos, que querem ver os pobres de volta em seu lugar, estão apenas preocupados em manter ou aumentar os próprios privilégios. A visão maniqueísta do mundo, essa tendência de classificar as pessoas em santos ou demônios me causa calafrios. Lógico que não votei no Serra por causa disso, até porque a visão maniqueísta e preconceituosa correu solta de lado a lado, talvez até pior no sentido oposto. Votei no Serra porque achei que seria melhor alternar o poder e brecar o aparelhamento do estado. Também porque não concordo que o PSDB tenha governado em favor da elite. E porque acho que a corrupção no governo do PSDB foi mais periférica e menos generalizada do que no do PT. Há pelo menos quatro pessoas que conheço, respeito e admiro e que, conhecendo o Serra pessoalmente, acreditam que ele seja uma pessoa honesta e um democrata preocupado com a justiça social. O que o depoimento delas não conseguiu, porém, foi acabar com a minha principal reserva em relação a ele, algo que acho grave: o pouco valor que deu à própria palavra quando renunciou aos cargos para os quais tinha sido eleito (e prometido exercer até o final) para assumir o ministério ou para candidatar-se a outro cargo. Então não foi um voto dos mais convictos, no primeiro turno preferi a Marina, mas acredito sinceramente que a eleição dele seria melhor do que a da Dilma para o país.
E, no entanto, também discordo de grande parte dos meus amigos que, como eu, votaram no Serra. De alguns, muito veementemente, inclusive, como do que escreveu “impeachment ou divisão do país”, no mural do Facebook. O que é isso? Quer destituir uma presidente legitimamente eleita? Como fica a democracia? Divisão do país, então, foram vários que pediram. Para mim estão todos loucos, quero o Brasil inteirinho, com toda a sua diversidade, quiçá uma das melhores coisas que temos. Sem contar que, quando pensam em dividir o país, talvez imaginem que seja possível fazer isso sem uma guerra civil, pois quem, em sã consciência – ainda mais essas boas pessoas que são meus amigos! – escolheria a selvageria da guerra? Além disso, agora, torço para que a Dilma faça um bom governo. Espero que a oposição se organize e cumpra seu papel, evidentemente. Mas que não seja uma oposição destrutiva (do tipo que o PT faz tão “bem”, por sinal).
Achei essa campanha eleitoral muito triste. Os candidatos falando o que as pesquisas dissessem que os eleitores queriam ouvir. Os eleitores empenhados em ataques pessoais entre si. Mensagens carregadas de muito preconceito entupindo nossa caixa postal. Quase nenhuma discussão verdadeiramente relevante. O Estadão resolveu se declarar abertamente partidário do Serra, o que considerei positivo, apenas para em seguida demitir a voz dissonante, o que me deu vontade de nunca mais ler aquele jornal. Uma coisa é declarar seu apoio a um candidato, o que é bom para que o leitor saiba que há viés na cobertura, outra coisa é acabar com o espaço para debate. Poderiam perfeitamente fazer uma crítica ao que escreveu a Maria Rita Kehl, mas demiti-la tornou ridícula toda a sua campanha pela liberdade de expressão. No balanço de tudo, me parece, a democracia saiu perdendo. Se a política continuar sendo um jogo onde o objetivo é o poder em si, que chance temos? E então há os meus amigos que dizem que as coisas são mesmo assim, nunca vão mudar, não vale a pena votar, nem pensar sobre o assunto. Você acha que finalmente estou de acordo com alguém? Engano: discordo desses também.
P.S. – Para aliviar, aqui vai o link para um texto com o qual concordo totalmente.
Cultivo algumas fantasias, crenças e convicções. O pó de pirlimlimpim é minha fantasia preferida. Para quem não se lembra ou não conhece, apresento: com pó de pirlimpimpim a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo ia para todo lado. Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa viajavam assim: juntavam-se, jogavam um pouquinho de pó sobre si mesmos, pensavam para onde queriam ir e diziam: pirlimpimpim! Pronto, chegaram. Mais fantástico que tele transporte. Desde criança, nunca deixei de fantasiar a possibilidade de estar onde bem entendesse num estalar de dedos. Hoje em dia, tendo pessoas queridas vivendo nos quatro cantos do planeta e sendo paulistana, com horror a congestionamento, fantasio mais do que nunca.
Crenças não são o mesmo que fantasia. Quando acreditamos, mesmo não podendo provar a verdade ou a existência do fenômeno, estamos convencidos de que seja assim. No meu caso, acredito no sobrenatural, de alguma forma que ainda estou tentando decidir, vinte anos depois de desistir da religião que não religava coisa nenhuma. Acredito que somos seres espirituais, acima de tudo. E que há mais do que o que nossa pobre razão é capaz de explicar. São crenças, coisas que não me arriscaria discutir com ninguém, por falta de argumentos.
Já convicções são crenças com mais força. Arrisco até entrar numa discussão pelas minhas, embora tenha poucas. Penso ter argumentos, mesmo que não consiga articulá-los muito bem. Por exemplo, acredito firmemente que a bondade existe. E não me venha com essa cara de quem me ouviu afirmar que acredito em Papai Noel. Eu vi a bondade. Então você vai me dizer: eu também já vi o Papai Noel uma porção de vezes. Meu filho tirou até foto no colo dele ano passado, num shopping center. Está bem. Serei obrigada a concordar que, algumas vezes, a bondade não passa de fantasia, não no sentido de sonho, mas no de roupagem, usada para dar aparência de ser o que não se é. Mesmo assim estou segura de que ela existe de verdade. Inclusive dentro de você, que duvida da existência dela. Ah, só duvida de que ela exista nos outros? Bem, nesse caso...
Está fora de moda ser feminista. Para algumas pessoas o feminismo não faz mais sentido, já que as mulheres podem votar, presidir empresas e países, escolher se, quando e quantos filhos querem ter, casar com quem desejam, pedir divórcio se quiserem. Para outras, ele nunca fez, como para um machista conhecido meu, segundo quem “todo o feminismo acaba ao primeiro pneu furado”. Vou manifestar meu desacordo com uns e outros.
Começando pelos últimos, devo reconhecer que alguns deles se enganam quanto ao feminismo, em parte, por culpa do próprio feminismo. Luta pela igualdade, não é? Será que isso inclui parecer homem, agir como homem, ter força física de homem? Entenderam assim aqueles que acreditam que o pneu furado acaba com o feminismo. Entendo diferente, então talvez devesse omitir que sei trocar pneu, furar a parede para instalar prateleiras e subo no telhado para limpar a placa do aquecedor solar. E que já me diverti um bocado à custa de homens que acham vergonhoso perder de mulheres, na época em que era boa nadadora. Não escondo, não. Porque me sinto mulher mesmo quando troco pneu (pulando na chave de roda, mas troco), furo a parede ou deixo algum marmanjo para trás na piscina. Não quero parecer homem. Não quero ser tão forte quanto eles. Não quero pensar como eles. Quero ter dignidade, sendo mulher, sem precisar imitá-los. Se acabei não precisando deles para algumas coisas, continuo precisando para outras, assim como acho evidente que eles precisam de nós em muitas ocasiões.
Então dizem que o feminismo perdeu o sentido. Quero evitar ir muito longe, falar da realidade de países da África e do Oriente Médio que conheço apenas através de livros e jornais. Não por achar que não tenho nada com isso – creio que somos todos uma só humanidade e a indiferença simplesmente não serve – mas porque nem seria preciso argumentar sobre a importância da luta pela emancipação feminina nos lugares onde meninas são proibidas de ir à escola, dadas em casamento ainda crianças, devem ser obedientes e submissas aos pais, irmãos e maridos. Ficando aqui pelo Brasil mesmo, acho que temos muito para conquistar. Algumas razões óbvias: somos sub-representadas no congresso. Ocupamos poucos cargos de chefia nas empresas. Ganhamos menos do que os homens para fazer o mesmo trabalho. Outras menos evidentes: ainda estamos aprendendo a ser femininas no mundo contemporâneo e nos vemos diante de dilemas que passam longe da realidade dos homens: impossível ignorar os conflitos entre maternidade e carreira, por exemplo. E aqui (também) percebemos que é bom ter escolha, mas nem sempre é fácil escolher.
Enquanto cientistas tentam descobrir, entre as diferenças de gênero, o que é biológico e o que é socialmente determinado (e eu desconfio que eles não terão muito sucesso nessa empreitada), as mulheres vão tentando decidir até que ponto querem assumir os papéis sociais tipicamente masculinos, diante da dificuldade de abandonarem outros tipicamente femininos e da sobrecarga que isso representa. De minha parte, acredito que justo mesmo seria que as mulheres não apenas pudessem escolher, mas também que os papéis femininos fossem mais valorizados. Algumas coisas, é inegável, eles não podem mesmo fazer. Já falei aqui da pena que sinto por não poderem dar o seio. Alimentar o filho é bônus de ser mulher. E ônus também, pois ninguém ignora que as empresas detestam receber a notícia de que uma funcionária importante e difícil de substituir está grávida, no mínimo uma boa pista da razão de sermos menos valorizadas do que os homens no mercado de trabalho. E a maternidade não acaba quando termina o aleitamento – ou a licença – e então tantas mulheres se vêem no dilema de escolher entre sua independência financeira e a chance de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos. Isso nas classes privilegiadas, onde existe opção. Outras realidades mais brutas se apresentam, nem precisamos olhar muito longe.
Vou parar por enquanto, pois quanto mais penso, mais coisas pedem minha atenção. Talvez isso seja assunto para um livro, não para um texto de blog.
Dois filmes de Woody Allen dão a medida do meu relacionamento com o acaso. Quando assisti Match Point, saí do cinema angustiada. O filme é genial, mas nele o acaso desempenha um papel terrível. Já no mais recente Whatever Works, o acaso faz um trabalho maravilhoso, uma delícia. Saí do cinema contente da vida. Então é isso: não gosto nem desgosto do acaso. Ou gosto e desgosto, dependendo de como ele trabalha.
Tenho uma “nova amiga de infância” (definição perfeita para uma amizade que acabou de começar e parece ter sempre existido, ideia dela mesma). E mais uma porção de novos amigos muito bacanas. Uma boa amizade é algo de valor incalculável para mim, portanto tenho me sentido afortunada. Estou mesmo feliz. Vou contar como conheci a Claudia, o Daniel, a Thelma, os Marcos, o Egas... Primeiro a Dora, uma amiga querida de muitos anos, indicou o meu blog para o Daniel. Ele deixou cá um comentário, disse que ia comprar meu livro, nos encontramos no Facebook. Alguns dias depois comentei algo que ele postou, concordando com uma amiga dele. Era a Claudia. Por causa do meu comentário ela visitou meu perfil, achou o endereço daqui, gostou de algo que eu tinha escrito e lembrou-se de ter visto uma entrevista minha. Também comprou o livro e então os dois – Claudia e Daniel – disseram que queriam uma dedicatória. Combinamos um café na padaria. E desde então já foram vários cafés na padaria. Companhias agradáveis, inteligentes, alegres, divertidas. Conversa boa, gente fácil de gostar. Impossível não sair da padoca com uma sensação parecida com a que me deixou Whatever Works: adorando o acaso. Pois vejam apenas alguns dos “ses", os mais recentes e óbvios, que poderiam ter atrapalhado esse encontro delicioso: se eu e a Dora não tivéssemos decidido colocar nossos filhos para estudar nas mesmas escolas, se não nos tivéssemos feito amigas, se eu não tivesse escrito um livro, se não tivesse finalmente conseguido publicar, se não tivesse criado um blog, se ela não tivesse tido a ideia de indicá-lo para o Daniel, se ele não tivesse gostado, se não tivesse escrito um comentário, se a Claudia e eu não tivéssemos feito o mesmo no perfil dele, se ela não tivesse vindo ler meus textos, se não tivessem me pedido uma dedicatória...
Tudo aconteceu como acontecido, por isso passei ontem uma manhã deliciosa entre novos amigos, o que me deixou contente da vida. Caro Senhor Acaso, muito obrigada. Poderia, por favor, continuar trabalhando sempre assim?
Conversa minha comigo mesma, ou começando a ouvir a voz da Razão:
- Muito bem, já chega! Vamos tornar a realidade. Está ótimo, você descobriu que estava vivo e isso te fez um bem danado, mas agora basta. Foi uma fantasia divertida, mesmo eu tenho que admitir. Apenas, da próxima vez, procure encantar-se com alguém desse nosso universo, não vá buscar noutra galáxia...
-Mas...
- O quê? Pareceu possível, quase de verdade, por algum instante? Ora vamos, seja razoável! Até admito que exista identidade de idéias. E, está bem, que mulher não se sentiria atraída por um homem tão bonito? Dou um desconto, mas o problema é de ordem prática.
(Em silêncio, o Coração, que nunca foi muito articulado, ainda pensa: você, Razão, é que as vezes não parece muito razoável. Pedir razoabilidade a mim, ora bolas, isso é razoável? Enquanto isso, a Razão, muito cheia de si, vai pensando: mais uma constatação sobre a passagem do tempo – aos quarenta, ninguém me pode calar muito longamente!)
Mudei de ideia. Coisa corriqueira, me acontece o tempo todo. Extraordinário foi o acontecido que me fez mudar dessa vez. Estou apaixonada. Completamente apaixonada, com direito a perder o sono, o foco, a razão. Pensar nele, suspirar e sentir o coração batendo - o tempo todo já que tudo me faz lembrar dele. Ridículo, eu sei, isso é coisa para quando se tem quinze anos. E, no entanto, acabo de descobrir, aos quarenta é tão incontrolável quanto então. Com uma diferença, fundamental e deliciosa: aos quinze, esse encantamento arrebatador, essa energia aparentemente inesgotável, esse filtro de beleza através do qual passamos a ver o mundo enquanto apaixonados, vêm acompanhados de um desespero, uma urgência, uma sensação de que o mundo vai acabar se não pudermos estar ao lado do ser amado. Agora não. Sei que vai passar. Se nada acontecer, vai passar. Se acontecer e for bom, vai passar. Se acontecer e o coração se partir, ainda assim, vai passar.
Falta explicar porque – e como – isso me fez mudar de ideia. E foi assim: faz bem pouco tempo, escrevi aqui um texto sobre estar envelhecendo, onde me queixava de que os sinais com que o tempo vai marcando meu corpo não estavam acompanhados pelas conquistas interiores que ele deveria proporcionar. Agora vejo que conquistei alguma coisa muito boa. Finalmente, sou inteira. E estar apaixonada e inteira, acho que é das melhores coisas da vida.
Domingo passado fiz uma coisa que gosto muito. Saí de casa meio sem rumo, até querendo passar por alguns lugares, mas o desejo principal era andar pela cidade, um pouco como turista: olhar e passos lentos. Peguei um ônibus na Vital Brasil que sobe a Rebouças. Lá em cima desci e fui andando em direção ao Pacaembu. O bairro é bonito e rico, ajardinado, casas grandes, árvores floridas. A selva de pedra que eu temia que pudesse me devorar quando mudei da roça para cá, parece que existe de verdade, mas fica noutra parte. Mais perto do estádio, os ambulantes e flanelinhas já se preparavam para receber os torcedores do jogo entre Corinthians e São Paulo. Talvez viessem do lado mais cinza, onde o concreto oprime, embora menos que outros problemas.
Passei pela Barcelona para matar a saudade do folhado de queijo branco que adoro. Fui até o Pátio Higienópolis fazer umas fotos. Não gosto de shopping, mas, enquanto as fotografias ficavam prontas, sentei-me num banco e li Mia Couto, encantada n’A varanda do frangipani. Às vezes devoramos os livros. Ou são eles que nos devoram? Saí dali e uma certa nostalgia levou-me em direção à rua onde morei logo que cheguei à São Paulo. Pensei em pegar o Cardoso de Almeida, ônibus elétrico que desce a Rua Alagoas. Era o primeiro que eu pegava para a USP, naquela época. No ponto de ônibus peguei meu tricô. Achei graça quando um rapaz que descia a rua disse: “ai, que bonito, fazendo tricô enquanto espera o ônibus, adorei!” Diverti mais quando um taxista parou no sinal e me apontou para o passageiro. Quando olhei para ele, falou que fazia trabalhos com tear, que eu passasse um dia pelo ponto dele, na Villaboim, para ver. Vou passar.
Apesar dessas graças, o tempo de espera foi ficando sem-graça. Esperei mais de quarenta minutos. Quarenta minutos! Pensa que o ônibus chegou, então? Enganou-se. Desisti e fui a pé! Isso azedou um pouco meu passeio – embora eu não tivesse hora nem pressa – porque me fez ver que o transporte público em São Paulo não melhorou como eu pensava. Verdade que o Google Maps e a página de itinerários da SPTrans não nos deixam mais sem saber qual ônibus pegar, coisa que era uma dificuldade terrível há vinte anos. Mas quem pode contar com um ônibus que demora mais de quarenta minutos para NÃO passar? O trânsito é a coisa que mais me incomoda em São Paulo. Meu bairro atual é bem servido por linhas de ônibus e em breve teremos metrô. Penso que não há solução possível se a classe média não começar a descer do carro e tenho tentado deixar o meu em casa quando posso. É ruim nos horários de ônibus e trens lotados, mas quando estão vazios, acho bem melhor do que estar dirigindo. Andava animada, dizendo para todo mundo que o transporte público tinha melhorado muito e também por isso detestei ficar esperando até cansar – literalmente. Espero que tenha sido um problema pontual...
Meu passeio acabou bem, de qualquer forma. Fui até a bilheteria do Tuca e comprei ingressos para ver o Jogando no Quintal, espetáculo que definitivamente recomendo. O ônibus para voltar para casa chegou logo e veio rápido – ah, como a cidade flui aos domingos! – e a sensação geral foi de um tempo bem desperdiçado, se posso chamar assim.
Tantas vezes ouvi, especialmente quando criança, a frase: “Ana, não dá para a gente mudar o mundo...” Ou suas variações – às vezes uma pergunta com ironia: “você quer mudar o mundo?” Outras em tom de proibição: “a gente não pode querer mudar o mundo!” Deve ser por isso que gostei tanto de ouvir, num vídeo do Changemakers, o Raí dizendo: "não só todos podem mudar o mundo, mas todos devem mudar o mundo. E vou além: todos mudam o mundo. (...) Então é uma questão não só de vontade, mas de responsabilidade."
Para crédito dos meus conselheiros de outrora, tenho que reconhecer que me despedaçar em lágrimas diante da miséria humana não ajuda em nada. E que eles queriam me ajudar. Exceto os irônicos, talvez... Agora, impossível não reconhecer que a afirmação do Raí é muito mais verdadeira. O que não podemos, de fato, é não mudar o mundo. Uma vez que estamos nele, cada escolha, cada atitude nossa tem um impacto sobre o todo, queiramos ou não. Consciência angustiante, talvez, mas necessária, hoje mais do que nunca.
Mundo louco, esse em que a gente vive. Como meio de sobrevivência procuramos congelar nossos sentimentos, calar nossa consciência e nos convencer de que para sermos felizes temos que nos tornar insensíveis diante de toda a desgraça que nos cerca, pois somos impotentes em face de sua imensidão. Assim é que justamente aquelas pessoas que poderiam fazer algo – não para mudar o mundo num estalar de dedos, mas para transformar a vida de uma, dez, talvez algumas centenas de pessoas – acabam se isolando em condomínios fechados e carros blindados, alheias ao mundo, protegendo-se dele. Não são felizes, vivem com medo. E até se convencem de que são as vítimas, às vezes. Somos mesmo seres estranhos, nós, humanos.
“As pessoas olham as coisas como são e perguntam: Porquê? Eu olho as coisas como poderiam ser e pergunto: Porquê não?" Bertrand Russel
Somos seres estranhos, nós humanos. Às vezes, queremos as coisas em ordem. Por exemplo: uma mãe não deveria ver seu filho morto, isso está fora da ordem. Outras vezes, queremos subverter a ordem das coisas. Como quando pensamos que gostaríamos de saber o que sabemos hoje quando tínhamos vinte anos. Ainda outro dia minha filha lamentava-se por ter que estudar e dizia que queria ter nascido sabendo. E eu, do alto da maturidade dos meus 40 anos pensava: que bobagem! Quase me esquecendo de quando tive o mesmo desejo. E completamente esquecida de como aquele refrão que diz: “I wish that I knew what I know now when I was younger” às vezes não me sai da cabeça.
Semana passada, num desses dias em que o tal refrão não me saía da cabeça, o escrevi naquele espacinho para “o que você está pensando agora” no Facebook. Para falar a verdade, nem gosto da letra da música. Acho que o tal avô era mesmo amargo, dizendo aquele tipo de coisa para o neto. E o neto, cantando a música, tinha amargado também. Acontece que eu a tinha ouvido no rádio, o refrão “enroscou” na cabeça e me vi pensando em como teria sido bom descobrir mais cedo que meditação pode curar depressão. E publiquei lá. Então um amigo fez o seguinte comentário: “Eu não, prefiro saber só o que sei agora, nada de saber antes ou saber depois. Prefiro continuar a aprender com a candura do iniciante, com a alegria da juventude, e com a humildade que se conquista com a maturidade...”. Mudei de idéia na mesma hora, achei simplesmente perfeito.
E, no entanto... Há sempre um no entanto. Não é apenas o fato de que nem sempre existe candura no iniciante, alegria no jovem e humildade no velho. É a dificuldade de juntar tudo isso no mesmo ser, no mesmo tempo. Talvez seja esse o grande desafio, amadurecer com humildade, sem perder a alegria e a candura. Além de perceber que não faz sentido querer subverter a ordem das coisas, nem colocar as coisas em ordem. Porque ordem, já viu: é coisa que não existe.
Morreu um amigo da minha filha. Tinha treze anos e a vida toda pela frente. Era aquele menino de quem todos gostavam. Clarinha quis ir ao velório. Precisei juntar toda a minha coragem para levá-la e mesmo assim fui decidida a ficar do lado de fora. Sinto-me tão fraca e sem estrutura nessas horas, simplesmente incapaz de ser útil de qualquer forma. E, no entanto, quem pode ser útil? Alguém pode devolvê-lo à vida, agora que já não é tempo de tais milagres? E fui.
O que me faz sentir totalmente inadequada nessas situações é que não sou capaz de qualquer distanciamento. Minhas próprias perdas voltam com uma intensidade tamanha, é como cutucar ferida mal cicatrizada. Andei pensando: quase tudo se treina. Se você não é capaz de correr, basta treinar e pode completar uma maratona. Se não consegue falar em público, a prática também ajuda. Até para estudar precisamos de treino e ficamos fora de forma, como descobri recentemente, ao decidir prestar doutorado e começar a frequentar um grupo de estudos - vi que minha capacidade de concentração tinha desaparecido e que eu precisaria reaprender a estudar. E, no entanto, quando se trata de perder quem se quer bem, parece que o “treino” só me fez cada vez mais fraca. Ou não.
Quando morreu meu afilhado, depois meu irmão, depois outro irmão e ainda mais um, a cada vez, fiquei sem chão. Uma dor tão grande que chega a ser incapacitante. Durante os velórios, uma frase ouvida à exaustão me provocava raiva: “a vida continua”, diziam, talvez sem saber que naquele momento eu preferia que ela não continuasse. Era verdade, porém, e um dia após o outro a vida seguiu, nunca mais sem dor, nunca mais sem saudade, mas voltou a ter momentos alegres e aprendi que me fazia bem tratar de fazer viver as qualidades dos meus irmãos em mim. Enfim, talvez eu tenha aprendido alguma coisa, apesar de ter ficado cada vez menos capaz de segurar as lágrimas num velório ou missa de sétimo dia.
Lembro-me, também, que o abraço dos meus amigos me trazia conforto e que era bom ver como meus irmãos eram amados por muita gente. Pensando nisso, e porque acredito em boa energia, pedi a Deus que fosse boa a que levava comigo e fui dar um abraço na mãe do Alexandre. Então ela me contou algo que eu jamais poderia imaginar: disse que ele, sempre que via o mar, falava de mim. Quero me lembrar, de agora em diante, que a gente passeia por esse mundo deixando marcas sem nem suspeitar. Gostaria de deixar pequenas boas marcas e então essa terá sido a herança que o amigo da minha filha, com apenas treze anos, me deixou.
Ontem decidi assistir ao jogo de Brasil e Chile no Vale do Anhangabaú. Eu queria sentir a vibração da multidão, queria ver o vale pintado de verde e amarelo e queria tentar tirar alguma foto bem bacana do espetáculo paralelo, o da torcida. Eu sabia que haveria um preço: nada do conforto do meu sofá, muitas cornetas e apitos, e o vento a trazer a fumaça do cigarro mais próximo direto para o meu nariz.
Cheguei quase na hora do jogo. Enquanto andava de um lado para outro procurando uma boa luz e um lugar de onde se pudesse ver um dos telões, ele começou. Logo no começo, quando o Luís Fabiano deu aquele chute para fora, o UHHH da torcida me deixou arrepiada. A multidão me emociona e pensei: valeu a pena. Agora era torcer pelo gol e pela explosão de alegria – e de verde e amarelo, que eu aguardava de câmera em punho. Mas qual o quê: o grito de gol veio muito alegre, sem dúvida, mas manchado, vermelho para todo lado. Não, não era sangue. Nenhuma cena de violência. O vermelho era dos infláveis que a Brahma, patrocinadora do telão, distribuiu à torcida. Para deixar claro meu protesto pelo imperdoável erro cromático da cerveja que se pretende dos guerreiros – e cuja publicidade tenho achado péssima já há algum tempo – vou escolher outra marca durante essa copa. E enquanto essa imagem ficar na lembrança.
Pois então. Como contei, sou do tempo em que, para falar ao telefone, a gente chamava a telefonista girando uma manivela. Isso, o fato de minha filha já calçar o mesmo número que eu, minhas sobrinhas se casando e a imagem que o espelho me devolve quando olho para ele são algumas das coisas que me fazem lembrar de que estou ficando velha, não importa o quanto ainda me sinta uma criança insegura e cheia de dúvidas. Além da nostalgia da própria juventude, da qual fica difícil escapar completamente vivendo numa sociedade como a nossa, tenho saudade de algumas outras coisas: do tempo em que podíamos entrar no avião levando o canivetinho suíço e uma garrafa d’água dentro da bolsa, por exemplo. A obsessão pela segurança no mundo de hoje me causa um tremendo desconforto, também pelo que ela tem de justificável, mas certamente não só. Tenho, ainda, saudade das embalagens retornáveis, dos brinquedos feitos em casa – o que já era uma brincadeira – e dos tênis Bamba. Até do disco de vinil, ou pelo menos daqueles encartes enormes bem bonitos que eles às vezes tinham. Mas não do telefone à manivela.
Acho que a facilidade de comunicação está entre as melhores coisas que a passagem do tempo nos trouxe. Poder falar com quem está do outro lado do mundo, instantaneamente, a preço acessível, não é maravilhoso? Pensem bem (ou, quem não viveu, simplesmente tente imaginar): falar ao telefone com alguém na Europa custava os olhos da cara. E já era um tremendo avanço! Antes do telefone e do telégrafo, o que havia era a carta. Meses para atravessar o oceano de navio e depois chegar, a cavalo, ao destino. Outras coisas que prefiro fazer hoje em dia, na era da internet: pesquisa bibliográfica, ir ao banco, digitar um texto, produzir uma apresentação. Talvez seja preciso explicar aos que tem menos de 20 anos como era uma máquina de escrever. Não dava para voltar! Pode ser, também, que os mais novos nunca tenham visto um retroprojetor e uma transparência. E certamente mal podem imaginar qualquer tipo de pesquisa sem o Google ou um botão “pesquisar” em alguma parte da página...
Outro dia ouvi alguém reclamando de que todas essas facilidades fizeram os jovens de hoje molengas, preguiçosos. Penso diferente. Desde a idade da pedra lascada que o homem procura desenvolver ferramentas que facilitem suas tarefas. Nossas avós provavelmente achavam que cresceríamos preguiçosas também, por causa das batedeiras, máquinas de lavar, de costurar e tantas outras. Ou que ficaríamos com a inteligência prejudicada por causa da máquina de calcular. Na verdade, o que acontece é que, quando temos uma ferramenta eficiente à disposição, podemos produzir mais. Se quisermos, evidentemente, mas pensar que a ferramenta produz preguiça é uma bobagem. E mais: não acho que os sites de relacionamento empobrecem (necessariamente) as relações. Bem usados, enriquecem. Claro que nada substitui uma boa conversa ao vivo e a cores, muito menos um abraço de verdade. Então, desde que a gente não tente substituir o insubstituível, fica tudo certo e a possibilidade de compartilhar idéias com um monte de gente, não importa a que distância estejam os amigos, não diminui nada, apenas acrescenta. Por acreditar mesmo nisso, tenho blog, uso Skype, MSN, Facebook e acho que estão entre as boas coisas que a passagem do tempo me trouxe. E não tenho saudade do telefone à manivela.