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Bloquinho da Ana Mesquita - crônicas, idéias e devaneios. - UOL Blog



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Bloquinho da Ana Mesquita - crônicas, idéias e devaneios.


Prazeres de quinta

Onze horas da manhã. Lembrou que era quinta - dia de feira - e levantou do computador toda animada. Gostava tanto de não esquecer do dia da feira! Saiu à rua e o sol se desescondeu de trás da nuvem aumentando sua alegria. Não gostava de frio e os últimos dias tinham sido bem frios, apesar de já ser outubro. Notou outra vez que os postes da rua estavam acesos em plena luz do dia e anotou na cabeça: ligar na Eletropaulo (dessa vez não posso esquecer, que desperdício de energia)! Na feira, de uma kombi vinha a voz do Raul Seixas “Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo prá ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos”... Pensou em sua própria alegria pelo dia de ir à feira comer pastel e sorriu. Se o Raul Seixas gostava de ser um “sujeito chato que não acha nada engraçado”, tudo bem. Ainda mais se a música dele continua fazendo o mundo menos chato até hoje. A Carminha, dona da barraca, cantava junto e dançava: “eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, e o jovem da barraca ao lado: “que horror”! Comprou brócolis e batata. Para fingir que não tinha ido só comer pastel.

Quando voltava para casa comendo quase sem culpa - a piscina estava lá para isso mesmo - passou em frente à barraca da Carminha, agora silenciosa. “Ah, desligou o Raul Seixas”, reclamou. “A música de antigamente é que era boa, a de hoje não vale nada, você não acha”? Concordou sem pensar. Se tivesse pensado concordaria também, não porque achasse que não havia nada de bom na música contemporânea, mas por acreditar que o momento era só de concordar. Continuou caminhando, pisou numas cascas de semente dessas que quebram tão gostoso quando bem secas, lembrou que tinha perdido um tanto da simpatia pelo Raul Seixas depois de ler a biografia do Paulo Coelho. Uma das poucas biografias que não tinha realmente gostado de ler, porque terminou sem sentir admiração pelo biografado. E foi biografia autorizada, lembrou, pensando no imbróglio entre alguns artistas e editores e em como ficou surpresa que Caetano, Gil, Milton e Chico juntassem seus esforços ao de Roberto Carlos pela censura, mas ao mesmo tempo balançou com alguns de seus argumentos em favor do direito à privacidade. Nisso ela admirava Paulo Coelho: entregou o baú de suas memórias ao biógrafo e não pediu para ler antes. Haja coragem! 

Entrando em casa sentiu vontade de escrever. Gostaria de saber escrever ficção. Teve uma ideia brilhante: vou escrever em terceira pessoa!

 



Escrito por Ana Mesquita às 13h39
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Candy Crush Saga

 

       Tenho um fraco para jogos. Fico viciada, perco um tempão e me aborreço, muito, pensando em tudo de melhor que eu poderia fazer com aquele tempo. Por isso, desde que entrei no Facebook, sempre bloqueei todas as notificações de aplicativos e evitei começar a jogar qualquer saga. Em julho, estava viajando com minha filha e um dia, no hotel, ela disse: mãe, preciso te mostrar um joguinho que você vai adorar. Respondi: melhor não! Ela insistiu: é de pensar, você vai ficar viciada! Retruquei: por isso que é melhor não. Só que ela estava jogando, sentei na cama ao lado dela, fui dar uma olhadinha... Não, esse não, mexe esse aqui! E, dali a pouco: posso jogar uma vez? Pronto! Dias depois ela já tinha se cansado de me emprestar o celular e queria instalar a porcaria no meu. Como não deixei, ela instalou no iPad (dela) e conectou com a minha conta do Facebook, para que eu começasse minha própria saga.

Uma semana depois de chegar de viagem já tinha visto que a coisa não iria funcionar.  Criei coragem e deletei o aplicativo do iPad. Minha filha, que já estava se divertindo com a minha fraqueza (embora eu tenha a impressão de que ela se surpreendeu por eu estar de fato viciada) disse: não acredito! Mas emendou: não adianta nada, dá para você jogar no Facebook. Não vou instalar, repliquei. E ela: não precisa instalar... Claro que o nosso big brother sabe tudo e o Candy Crush ficava sempre aparecendo ali nas propagandas do lado esquerdo do meu feed. Até que resolvi clicar “só para ver” se meu histórico continuava mesmo ali, todo salvo.

Então, meu nome é Ana e eu não jogo Candy Crush há cinco minutos. Pelo menos uma coisa nunca fiz: comprar vida, movimentos, “boosters”. Quem compraria, perguntarão os não viciados. Parece que um bocado de gente. O problema virou até matéria do UOL tecnologia. Foi nessa matéria que fiquei sabendo que esse tipo de jogo gratuito, onde você pode pagar por vantagens, se chama “freemium” Não tenho dúvida de que foi uma sacada de gênio dos criadores de games. Quem paga pelo jogo só paga uma vez. O viciado que compra vidas pode ser uma fonte constante de dinheiro pingando na conta. O mecanismo me faz lembrar da denúncia do Dr. Richard J. Roberts, nobel de medicina, segundo quem a indústria farmacêutica não se interessa em produzir medicamentos que curam, preferindo os que tornam as doenças crônicas. Claro que isso é muito mais grave que um joguinho bobo, mas o mecanismo é parecido. Lembra também do obsoletismo programado, dos cartuchos de tinta de impressora (já fizeram a conta do preço do mililitro de tinta?), dos aditivos do cigarro. Quando percebo que estão tentando me enganar e manipular fico brava (menos só do que quando percebo que conseguiram), então os botões de “clique para comprar” não me pegam, nem quando os movimentos acabam quando só falta uma gelatina que poderia ser destruída no movimento seguinte (isso só jogador vai entender...).

Não tenho orgulho do meu “progresso” no jogo, pelo contrário. Quando minha irmã me mandou uma mensagem dizendo que acabava de ser informada de que eu havia concluído o nível tal, fiquei envergonhada. E um pouco indignada, pois nunca compartilho meus resultados (o jogo também sugere que você compartilhe cada nível superado, cada amigo derrotado ou ultrapassado, cada “troféu” conquistado), então imaginava que não aparecesse para os amigos. Só que, evidentemente, o problema não é que fiquem sabendo, mas que eu continue jogando, apesar disso me incomodar. Então resolvi expor minha vergonha, para ver se paro com isso. Amigos jogadores: se eu fraquejar e pedir para destravar o próximo nível, ajudem não ajudando!

 



Escrito por Ana Mesquita às 11h51
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Quando eu era pequena

 

Quando eu era pequena, reclamava que não tinha nada para fazer. Agora tento não reclamar da falta de tempo para fazer tudo: o que preciso e o que quero (e quero fazer tanta coisa!).

Quando eu era pequena, gostava de abraço, cafuné, chocolate e mexerica. Agora gosto de abraço, cafuné, chocolate e mexerica, igualzinho.

Quando eu era pequena, tinha medo que um homem mau estivesse escondido debaixo da minha cama quando apagavam a luz, mesmo que eu tivesse acabado de olhar e me certificar de que não era o caso. E tinha medo do fundão da piscina, do cavalo disparar, da guerra nuclear. Agora ainda sou medrosa. Apenas começo a desconfiar que o maior perigo está em não ter coragem de trazer à luz minha própria escuridão.

Quando eu era pequena, não tinha medo de subir na garupa do meu irmão, de moto, e pedir para ele fazer umas loucuras - que ele fazia. Não tinha medo quando ele se esforçava para ver o velocímetro do carro voltar ao zero sem parar de acelerar. Não tinha medo do trenó de grama, nem do pára-quedas, nem do teleférico. Hoje acho que teria medo de algumas dessas coisas, sim.

Quando eu era pequena, achava que bom mesmo era ser grande. Hoje continuo achando que ser adulta é melhor do que ser criança (não que eu não tenha me divertido).

Quando eu era pequena, ficava muito decepcionada quando as fotos daquele filme que tinha ficado por meses dentro da câmera chegavam do laboratório. Hoje sei do erro de paralaxe, do contra-luz, da distância focal, velocidade, abertura e sensibilidade, rebatedor, luz de preenchimento, velocidade de sincronia do flash... E tenho uma câmera de gente grande. E posso ver a foto que acabei de tirar.

Quando eu era pequena, achava que era muito sabida. Talvez eu fosse mesmo, mas parece que desaprendi, já não sei de (quase) nada.

Quando eu era pequena achava que uma pessoa de 40 anos era velha. Por mais sabida que fosse, nisso eu estava enganada!

Quando eu era pequena, queria mudar o mundo. Hoje ainda quero, mas se mudar só a mim mesma já está bem bom.


 



Escrito por Ana Mesquita às 12h48
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Recontando a história

 

Já recebi várias vezes um e-mail que circula por aí, uma parábola contra o bolsa família. Diz a historinha que um professor de economia numa universidade americana nunca tinha reprovado nenhum aluno, quando certa vez reprovou uma turma inteira. Porque a turma insistia em afirmar que o socialismo funcionava, então o professor resolveu propor um experimento em que as notas de todos os alunos seriam divididas igualmente entre a classe. Depois da primeira prova os (esforçados) alunos que tinham estudado ficaram indignados por ver suas notas repartidas entre os “preguiçosos”, que por sua vez alegremente constataram que não precisavam estudar para ter uma nota boa. Então a média caiu nas provas seguintes, com os esforçados achando que seu esforço não compensava e os preguiçosos acreditando que o esforço não era necessário. E toda a turma acabou reprovada.

A historinha me deixa nervosa. Para começar, o professor nunca tinha reprovado nenhum aluno, certo? Incrível! Divisão de nota, então, se for necessária em algum lugar, ali não era. Depois, os alunos que tiram notas ruins são todos preguiçosos. Nenhuma hipótese de se aceitar a ideia de que alguns tivessem mais dificuldade naquela matéria, outros precisassem trabalhar loucamente para pagar a faculdade acabando com pouco tempo para estudar, outros não tivessem tido a oportunidade de estudar numa escola muito boa quando crianças, ou coisas assim. Além disso, todos os alunos estudiosos são egoístas. Concluem imediatamente que o esforço não vale a pena se o resultado dele deve ser compartilhado. No mundo desses estudiosos, ninguém jamais faria trabalho voluntário. Inclusive, a raça haveria de se extinguir rapidamente, pois quem estaria disposto a trabalhar para sustentar filhos improdutivos por tantos anos?

Para acalmar meu “nervo”, resolvi propor um final diferente para a historinha: depois de uma primeira prova em que a média geral foi fraca, os melhores alunos resolveram ajudar aqueles que tinham maiores dificuldades. Organizaram grupos de estudos, emprestaram livros, compartilharam anotações. Ao tentar ensinar os colegas, aprenderam ainda mais e ficaram mais brilhantes (todo mundo sabe que ensinar é um ótimo jeito de aprender!). Os que achavam que o professor falava uma língua incompreensível passaram a compreender a matéria com a tradução dos colegas e, agradecidos pela ajuda, resolveram esforçar-se mais que nunca. No final, a turma teve a maior média entre todas as turmas que aquele professor já tinha ensinado.


 



Escrito por Ana Mesquita às 18h44
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Hoje é Dia da Mulher. No entanto, por mais que eu discorde da ideia de que já não faz sentido lutar para melhorar a condição feminina, não vou escrever sobre isso. É que, quando os deputados, que deveriam ser os nossos representantes lá em Brasília, elegem um racista homofóbico para presidir a Comissão de Direitos Humanos e um sujeito conhecido como o “rei da motosserra” para presidir a Comissão de Meio Ambiente, pouco tempo depois de os senadores elegerem Renan Calheiros para presidir o Senado, ignorando todas as manifestações populares, que podem ter sido mais virtuais do que presenciais, mas foram muito significativas, aí vou deixar as questões de gênero para outro dia qualquer.

Vejo indignação por toda parte, e não é para menos. E o que me pergunto é: o que podemos fazer para salvar nossa democracia? Porque, ainda que ela não esteja funcionando lá muito bem, mesmo que depois de votar não me sinta verdadeiramente representada, até quando tenho a impressão de que os detentores do poder, que emana do povo, estão rindo da minha cara e do povo todo que está indignado, mas sente-se impotente para mudar o estado das coisas, continuo acreditando: democracia é melhor do que qualquer ditadura. Acho que salvar a democracia passa por superar essa sensação de impotência e acreditar que podemos, sim. Que a minha, a sua, a nossa participação faz diferença. Faz diferença nas “pequenas” coisas: não jogar papel no chão, reciclar o lixo, procurar consumir com consciência, usar menos o carro, difundir boas ideias. E pode fazer muita diferença, uma diferença mesmo estrutural, somada à participação de muito mais gente que acredita numa outra realidade possível. 

Vejo assim a #rede sustentabilidade. Como a ideia que pode fazer a grande diferença. Reforma política, participação da sociedade civil, outro conceito de desenvolvimento. Por isso resolvi apoiar, por isso sou mais uma na rede. Você também pode conhecer melhor visitando www.brasilemrede.com.br, pode dar seu apoio à criação do partido (não é filiação partidária nem cria vínculo com a #rede) preenchendo e assinando a ficha, pode envolver-se mais, tornando-se um mobilizador. Para os meus amigos, que são quase todos os leitores daqui, também vale passar aqui em casa para preencher e assinar as fichas que tenho já impressas (e eu me encarrego de entregar, aí não tem que ir ao correio!). Se derem bastante sorte, terei um bolinho ou umas bolachinhas para oferecer...

PS - Quem quiser saber o que penso sobre o dia da mulher, pode ler o texto que escrevi há cinco anos. Lamentavelmente, continua atual.

 



Escrito por Ana Mesquita às 15h27
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Resposta a Reinaldo Azevedo

 

Reinaldo Azevedo perguntou do que a Marina Silva está falando quando diz que estamos vivendo uma crise civilizatória. Fico na dúvida se ele de fato não vê crise ou se apenas tenta desqualificar, com má fé, sabendo na verdade muito bem que sim, temos problemas. Problemas graves e urgentes, que só poderão ser enfrentados a partir de paradigmas totalmente novos. 

Senão, vejamos: a humanidade não sabe o que fazer com a montanha de lixo que produz. A máfia italiana está envolvida com a questão do lixo, como contou Roberto Saviano em Gomorra. Como o lixo se tornou um negócio para a máfia? Assim: a destinação correta de todo o lixo tóxico ou radioativo produzido custa muito caro. A lógica do mercado diz que as corporações precisam cortar os custos, vender muito, multiplicar os lucros. A máfia cobra barato para sumir com o lixo perigoso - e simplesmente o joga no mar, ou enterra sob campos cultiváveis. Os resultados já estão sendo pescados e colhidos.

A lógica do mercado manda criar consumidores, consumidores insatisfeitos. E cria! Consumimos mais e mais, muitas coisas que não precisamos e também uma quantidade enorme de produtos até úteis, mas que são programados para ficar obsoletos daqui a pouco. Senão, como continuar a girar a economia, sustentar o crescimento econômico? Mas os recursos da Terra são finitos, incapazes de sustentar esse modelo de crescimento para sempre. Não é preciso ser gênio para perceber. Fala tonta parece a do Azevedo.

A política afastou os cidadãos, que se sentem impotentes diante de um sistema de democracia representativa onde não se sentem representados de fato.

Argumentando que não vivemos uma crise civilizatória, Reinaldo Azevedo afirma que “nunca antes na história deste mundo tantos homens viveram sob regime democrático”. Eu, no entanto, me sinto vivendo numa nova espécie de ditadura, pois elegemos nossos representantes, mas os vemos, entre as eleições, representando não os nossos interesses, mas os das grandes corporações e do mercado financeiro. Ele afirma também que “nunca antes na história deste mundo os seres humanos tiveram vida tão longa” e que “nunca antes na história deste mundo houve tanta comida e tão barata”. Recomendo que ele assista ao documentário Muito Além do Peso que mostra como a lógica do mercado é capaz de acabar com a saúde da população e prevê justamente que a geração de nossos filhos será a primeira a viver menos que a de seus pais. Afirma ainda que “nunca antes na história deste mundo tivemos tantos remédios para nossos males” e eu me pergunto se também não temos muitos males para nossos remédios e recomendo o artigo sobre a epidemia de doença mental que saiu na revista Piauí. E quando ele diz que “nunca antes na história deste mundo houve tantas crianças com acesso à educação” me lembro que também aí vivemos uma crise e a necessidade da emergência de novos paradigmas. E que precisamos que TODAS (e não apenas tantas) as crianças tenham acesso à educação, e a uma educação que forme cidadãos e seres humanos capazes de lidar com as questões de nosso tempo - que se renovam a uma velocidade vertiginosa. Depois ele diz que “nunca antes na história deste mundo houve tantos humanos com saneamento básico” e eu penso: mas não é básico? E de novo me pergunto como é que alguém pode achar que “tantos” é suficiente. E por fim ele fala das guerras e quando eu me lembro de que a humanidade ainda faz guerra eu tenho certeza absoluta de que precisamos paradigmas completamente novos. Então, se o Reinaldo Azevedo não entendeu sobre o que a Marina Silva estava falando quando disse que vivemos uma crise civilizatória, que fale por si mesmo.

 

PS - Se você não leu o artigo do Reinaldo Azevedo e quiser muito ler, leia...

 



Escrito por Ana Mesquita às 21h34
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Não há meio de passar essa tosse que não me deixa dormir, então ontem fui ao médico. Na sala de espera, um menino esperava pela mãe em companhia da avó e eles estavam brincando de adivinhar palavras. Um pensava numa palavra, dizia com que letra começava e o outro tentava descobrir. Dona Nazaré, a avó, propôs a letra “m”. 

- Macaco, tentou Enrico bem depressa, mas a avó não tinha pensado no macaco. 

- Minhoca! 

- Não, não é bicho.

- É de comer?

- Não, é uma coisa que a gente usa, usa para fazer coisas.

Enrico pensou, pensou e tentou, com a cara mais sapeca do mundo:

- “Merramenta”.

(Ele quase acertou. A palavra era Martelo.)


***


Como eu ADOREI a tirada do Enrico, Dona Nazaré me presenteou com uma da irmã dele, 3 anos mais velha. Quando ele ainda era bebê, certa vez Dona Nazaré estando na sala com os dois irmãos, Enrico no colo, decidiu ir à cozinha. Isabela veio atrás, com lápis e papel na mão. Riscou, riscou, riscou e entregou para a avó:

- Vó, para você.

- Obrigada, agradeceu Dona Nazaré.

- Não, vó, não é obrigada, é uma multa. Você veio muito rápido da sala para a cozinha. 


Eu acho o máximo como criança sabe das coisas! Ontem foi uma delícia esperar a minha vez. E olha que eu nem cheguei a abrir o livro que levava comigo.



Escrito por Ana Mesquita às 10h05
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Estranhas reflexões olímpicas

 

Os Jogos Olímpicos mexeram comigo de algumas formas (alguém passou incólume?). Por exemplo: eu que não gosto de televisão, nunca ligo o aparelho se estou sozinha em casa e quando passo perto dele ligado geralmente peço para abaixar o volume, me vi pedindo para a minha filha mudar o canal: coloca aí no SporTV. Verdade que a falta de hábito televisivo sem dúvida me fez ver muito menos dos Jogos do que minha paixão por esportes faria supor que eu veria, mas foi uma mudança significativa.

Então, outro dia, eu estava vendo a final do nado sincronizado quando pensei, pela enésima vez nas últimas semanas: como pode? E me dei conta de que esse era o grande espanto que os Jogos Olímpicos me causam, repetidamente: como pode o bicho homem ser capaz de tais coisas? Sincronia perfeita, força, velocidade, resistência, habilidade, flexibilidade, pontaria... Como podem desenvolver em doses tão altas? Comentei com meu namorado: não é incrível, a capacidade do ser humano? Ele retrucou: é, mas são muito poucos... Eu não tinha pensado se a capacidade incrível era de uns poucos - olímpicos, semi-deuses - ou se era de todos nós. Refletindo, tive que discordar.

Acho que a capacidade de desenvolvimento espantosa é uma característica humana. Claro que há variações gigantescas de limite, onde cada um pode chegar. Eu provavelmente nunca chegaria a atleta olímpica, por mais que treinasse qualquer modalidade. E, no entanto, pensava que não seria capaz de nadar quase dez horas no mar a dezesseis graus e nadei. Sou um desastre com bolas, mas consegui aprender a jogar malabares com três bolinhas. E, ainda outro dia, com essa idade, aprendi a andar de bicicleta sem as mãos no guidão... Muito dessemelhante do que fazem os atletas olímpicos, mas extraordinário em relação àquilo que me parecia possível. Da mesma forma, acho que podemos desenvolver extraordinariamente nossa capacidade intelectual e mesmo nossa capacidade de amar. E, tristemente, até de odiar, como provam as guerras.

Enfim, mesmo que seja algo estranho para pensar por causa dos inacreditáveis atletas olímpicos, acabei aqui: é bom poder escolher o que queremos desenvolver dentre tudo o que podemos. À medida que envelhecemos o leque das escolhas possíveis vai diminuindo, mas a consciência com que escolhemos pode aumentar bastante. E decidi, sem sombra de dúvida: entre as minhas capacidades de amar e de odiar, prefiro desenvolver a primeira.


PS - Acho que a questão da gênese do ódio durante as guerras está em minha cabeça por causa da relativamente recente (e muito forte) leitura do livro Trem para o Paquistão, de Khushwant Singh (compre aqui). Depois de ler esse livro, vendo as notícias sobre a Síria, pensei: de novo, nunca vamos aprender? Uma outra espécie de “como pode”, chocada ao invés de maravilhada.

 



Escrito por Ana Mesquita às 07h34
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Carrasco Amigo

Minha mãe há muito tempo apelidou a balança de “carrasca”. Lembrei dela quando vi aquela piadinha que circula pelo Facebook, onde uma menina diz ao amigo prestes a subir na balança: “não suba nisso aí”. “Por que”, ele pergunta. “Minha mãe quando sobe chora!”. Recentemente ela arrumou um marido para a balança, o tempo, esse carrasco. Mais que depressa concordei, ele é mesmo terrível. Passa correndo, rápido demais, não podemos acompanhar, ficamos sempre para trás. Nunca dá para fazer tudo o que precisamos e queremos. Então, pensei de novo... (não tem remédio, eu sempre penso mais uma vez).

O caso é que as coisas andam difíceis. E, num dia especialmente triste uma amiga ofereceu ajuda, disse que se eu precisasse de qualquer coisa que contasse com ela (que coisa tão preciosa são os amigos!). Pensei: acho que só quem pode me ajudar é o tempo. O tempo que passa e vai cicatrizando as feridas, nesse caso. O mesmo que não queremos que passe quando precisamos entregar um trabalho e queremos curtir mais a filha, encontrar os amigos, namorar sem pressa, nadar à vontade, ir caminhando... E também o que transforma a semente em árvore e depois traz os frutos, não importa que seja mesmo uma laranja ou uma metáfora. E nesse caso, mais uma vez, não achamos ruim que ele corra.

Imaginem então que a gente pudesse acelerar e frear o tempo a nosso gosto. Seria uma confusão, iríamos querer que ele voasse e parasse. A um só tempo! Algo tão absurdo quanto um carrasco amigo, que é como vou chamá-lo agora.



Escrito por Ana Mesquita às 19h12
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Bicicleta, um perigo!

Resolvi começar a usar a bicicleta como meio de transporte. Tem bastante gente fazendo a mesma coisa e eu acho isso ótimo. Algumas pessoas acham péssimo. Não só aquelas que insistem que as bicicletas atrapalham o trânsito (por que será que tenho a nítida sensação de que se cada ciclista pegar um carro o trânsito fica mais atrapalhado?). Tem gente que acha péssimo sob o argumento da segurança. Não faça isso, é perigoso, dizem alguns bem intencionados. 

Já tive que ouvir isso muitas vezes numa outra ocasião. Quando resolvi atravessar o Canal da Mancha tinha gente me perguntando se eu queria morrer. Oras, claro que não, só queria nadar da Inglaterra até a França. O caso é que a Renata Agondi tinha morrido lá fazia pouco tempo, a tragédia tinha tido muita repercussão e parecia ser a primeira coisa que vinha à cabeça de todo mundo. Mas minha ideia não era morrer e procurei cercar a empreitada de cuidados para não correr riscos demais. Claro que mesmo assim eu poderia ter morrido, assim como posso morrer agora mesmo num ataque cardíaco fulminante. Ou a qualquer momento num acidente de carro, atingida por um raio ou uma bala perdida, até de bala achada posso morrer, vai saber.

Compreendo que o tamanho do risco varia imensamente dependendo do que se faz e de como se faz, e sei que é disso que estão falando quando me dizem que andar de bicicleta em São Paulo é perigoso. Quero explicar aos meus amigos e às pessoas queridas que se preocupam comigo que tenho procurado pedalar com cuidado, me informar sobre como fazer isso, buscar as melhores rotas. Minha decisão de usar a bicicleta para ir e vir não é uma atitude auto-destrutiva, pelo contrário. Acontece que o trânsito de São Paulo tem sido cada vez mais agressivo à minha saúde mental, estou com dificuldades de encaixar exercício na minha rotina e quando comecei a ver cada vez mais ciclistas pela rua fiquei morrendo de vontade de seguir o exemplo deles e resolver os dois problemas. De quebra poluo menos e ainda economizo. Portanto, acredito, minha atitude é definitivamente construtiva, tanto individual quanto coletivamente.

Agora, acho que cabe muito bem aqui um começo de reflexão sobre percepção de risco. Nas minhas andanças pela internet em busca de informações sobre o uso da bicicleta, topei com um vídeo interessante. O título é “Porque não deveríamos andar de bicicleta com capacete” e traz o resultado de uma pesquisa que diz que quando se faz campanha pelo uso de capacete, o número de ciclistas diminui. Isso aconteceria porque esse tipo de campanha faz as pessoas pensarem que a bicicleta é perigosa. Ele também traz um dado de outra pesquisa segundo a qual o ciclista corre mais risco de lesão cerebral usando capacete e se envolve em 40% mais acidentes. O que o vídeo não diz, mas eu imagino, é que provavelmente o uso de capacete aumenta os acidentes porque o ciclista sente-se mais seguro e torna-se mais imprudente. Se fizerem uma pesquisa talvez também concluam que motoristas que começam a dirigir carros com air bag e freio ABS também se envolvem em mais acidentes, pelo mesmo motivo. Diante de tudo isso, vale refletir sobre como o medo que sentimos nem sempre - ou talvez quase nunca - é proporcional ao risco real. Andar de carro, é bastante perigoso, mas as pessoas tendem a sentir-se seguras dentro deles. Atravessar o Canal da Mancha, acompanhada por um barco e por um treinador experiente é pouco arriscado, mas muita gente acha tremendamente perigoso. Ou seja, a percepção do risco não costuma ser exata e às vezes pagamos caro por uma falsa sensação de segurança, por exemplo, nos fechando em condomínios e em carros blindados. E pagamos caro não apenas financeiramente, mas, principalmente, como sociedade.

 



Escrito por Ana Mesquita às 12h46
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Facebook, gosto e desgosto

 

Já disse e repito: gosto das redes sociais. Não quero de modo algum substituir o encontro com meus amigos por comentários ou “curtires”, mas gosto de ver as fotos e receber notícias de quem está longe, adorei ter reencontrado gente querida de quem tinha perdido o contato, muitas vezes encontro ótimas dicas de leitura, tenho um amigo que sempre posta música boa, alguns postam comentários inteligentes que me põem para pensar, me divirto com uma ou outra piada. Não pretendo dar conta de mais de uma rede, escolhi o Facebook e ignoro os convites que recebo para as outras. Evito a paranóia com relação à perda de privacidade ou procuro não pensar muito nisso, porque acho uma ilusão pensar que temos alguma, de qualquer forma. Evito relatar cada passo que dou, mas estou lá e tenho amigos demais, muitos dos quais tenho apenas uma vaga ideia de quem são. Estou consciente da superficialidade e da superexposição. Sei que todo mundo - eu inclusive, provavelmente - quer parecer melhor e mais feliz do que é. Nem me iludo com a ideia de ter de fato esse monte de amigos. Mas gosto do Facebook e me conecto com frequência.

Agora, ando cansada. Especialmente das correntes, que quebro sistematicamente. Hoje de manhã, quando entrei FB, fui informada de que seis amigos compartilharam um link com uma foto, dizendo assim: “Amigos, esta foto prova que a cadeira que a jovem ocupava quando morreu no parque estava interditada em janeiro e não tinha a trava de baixo. Façam circular a foto para chegar à família da jovem e auxiliar na investigação. Quem compartilhou a Luiza do Canadá, pode compartilhar esta foto para auxiliar na investigação.” Ai, que preguiça! A verdade é que o parque já admitiu que a cadeira estava interditada há muito tempo e a foto não prova coisa alguma. Apenas mais uma corrente tola, com a infalível e detestável tentativa de gerar culpa em quem não compartilha. E ainda outro dia teve, de novo, aquela alertando para a perda da privacidade, pedindo que todos os amigos passassem o mouse sobre a foto, etc, etc... Mentirosa, porque se os amigos fizerem o que é pedido o cara que postou some do mural deles, nada mais. E, imaginem só se todo mundo tivesse que passar o mouse sobre a foto de cada amigo... Eu teria que fazer isso mais de 800 vezes, seria viável? Quem espera algo do tipo não deveria compartilhar coisa nenhuma, melhor seria que simplesmente deixasse a rede social. Seria bom que também soubessem: nada do que a gente publica vai ser visto por todos os amigos, então, se fosse verdade e todos os amigos (que vissem a postagem) tivessem o tempo e a boa vontade de seguir as tais instruções, ainda assim, o pedido não teria utilidade. 

E estou cansada das correntes religiosas. E dos comentários intolerantes. E das fotos grotescas. Não assisto TV. Sei que às vezes passa coisa boa, mas perco o que existe de bom por causa da enxurrada de porcaria. Será que vai acontecer a mesma coisa com o FB, vou acabar desistindo dele?

 



Escrito por Ana Mesquita às 11h10
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Cabeça boa...

                Tem um supermercado bem perto da minha casa, a uns dez minutos de caminhada. Gosto de ir a pé. Porque detesto o trânsito (e assim evito o aborrecimento e não contribuo para piorá-lo), porque vou pensando na vida enquanto caminho e ainda poluo o ar um pouquinho menos. Quando preciso comprar poucas coisas, o que acontece na maior parte das vezes, já que somos só duas aqui em casa, trago as compras eu mesma. Quando a compra é maior, peço para entregarem e ainda assim vale para reduzir a emissão de carbono, porque nessa distância eles entregam de bicicleta. Acho perfeito.

                Ontem eu precisava comprar algumas coisinhas. Peguei duas sacolas de pano, uma sombrinha, pois estava chuviscando, e fui, sentindo-me leve. Entrei no supermercado, peguei umas bananas, laranja, manga, leite, guardanapo de papel e fui para o caixa. A moça passou a compra, deu o valor e fui pegar a carteira na bolsa. Mas alguém me viu dizer que levei a bolsa? Tinha esquecido. Por isso estava tão leve! Precisei deixar tudo lá e voltar em casa para buscar.

Nem posso culpar a idade. Anos atrás (muitos!), bem mais de uma vez, me aconteceu de chegar ao clube para treinar, entrar no vestiário, tirar toda a roupa, abrir a mochila e só então perceber que tinha esquecido o maiô. Como pode? Geralmente esqueço a bolsa quando penduro alguma outra coisa no ombro. Não quero dizer que sempre que tenho uma sacola ou mochila esqueço a bolsa, mas se não tiver nada disso, a possibilidade de sair sem bolsa se reduz muito. Para o maiô, nem essa desculpa tenho. A coisa que mais esqueço é o celular e o mais engraçado é quando esqueço que não esqueci, como outro dia em que eu estava saindo, lembrei do celular, voltei para dentro para procurar, não encontrava e perguntei para a minha filha se tinha visto. Ela ia iniciando a busca quando encontrou... na minha mão! Tem algum doutor por aí para me dizer se essa doença tem cura?



Escrito por Ana Mesquita às 11h13
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Discordando no atacado

                Discordo dos meus amigos que acreditam que a Dilma era a melhor opção para o Brasil. Não discordo violentamente, mas discordo. Na área em que tenho mais elementos para análise, o esporte, acho que o governo Lula vai de mal a pior: dando prioridade ao alto rendimento e adotando o discurso de que o importante é a imagem que se projeta do Brasil lá fora, por isso devemos ser potência olímpica. Para mim, o importante é o que o país é de fato, não a imagem que projetamos, por isso não me interessa melhorar a classificação no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos enquanto nosso IDH continua péssimo. Está bem, dizem que 30 milhões foram resgatados da miséria absoluta, impossível não considerar isso um grande avanço. Mas, da forma como vejo o país hoje, acho que a concentração de renda continua, da pior forma possível: concentrada no sistema financeiro que, por causa da nossa taxa de juros estratosférica torna toda atividade produtiva no país coisa de gente idealista. Basta conversar com quem entende de empresa e de finanças para ouvi-los dizer que o capital é remunerado, sem risco e sem trabalho, aplicado no mercado financeiro – muito “melhor” do que pensar em produzir qualquer coisa. Pessoalmente não entendo muito dessas coisas, mas fico com a impressão de que, da forma como tem sido feita, a política social do PT não poderá se manter por muito tempo. Claro que, nem por isso, sou contra o programa de renda mínima (embora acredite que ele deva ser aprimorado). Talvez bastasse acabar com a corrupção e provavelmente haveria recurso para tudo, sem essa aberração de ver os bancos concentrando toda a renda do país.

                Então, mesmo sem ter certeza absoluta de que fosse mesmo melhor, votei no Serra. Uma das coisas que me dava vontade de votar nele era ver petistas fazendo um julgamento pessoal sumário de quem votasse no Serra. Más pessoas, diziam muitos, que querem ver os pobres de volta em seu lugar, estão apenas preocupados em manter ou aumentar os próprios privilégios. A visão maniqueísta do mundo, essa tendência de classificar as pessoas em santos ou demônios me causa calafrios. Lógico que não votei no Serra por causa disso, até porque a visão maniqueísta e preconceituosa correu solta de lado a lado, talvez até pior no sentido oposto. Votei no Serra porque achei que seria melhor alternar o poder e brecar o aparelhamento do estado. Também porque não concordo que o PSDB tenha governado em favor da elite. E porque acho que a corrupção no governo do PSDB foi mais periférica e menos generalizada do que no do PT. Há pelo menos quatro pessoas que conheço, respeito e admiro e que, conhecendo o Serra pessoalmente, acreditam que ele seja uma pessoa honesta e um democrata preocupado com a justiça social. O que o depoimento delas não conseguiu, porém, foi acabar com a minha principal reserva em relação a ele, algo que acho grave: o pouco valor que deu à própria palavra quando renunciou aos cargos para os quais tinha sido eleito (e prometido exercer até o final) para assumir o ministério ou para candidatar-se a outro cargo. Então não foi um voto dos mais convictos, no primeiro turno preferi a Marina, mas acredito sinceramente que a eleição dele seria melhor do que a da Dilma para o país.

                E, no entanto, também discordo de grande parte dos meus amigos que, como eu, votaram no Serra. De alguns, muito veementemente, inclusive, como do que escreveu “impeachment ou divisão do país”, no mural do Facebook. O que é isso? Quer destituir uma presidente legitimamente eleita? Como fica a democracia? Divisão do país, então, foram vários que pediram. Para mim estão todos loucos, quero o Brasil inteirinho, com toda a sua diversidade, quiçá uma das melhores coisas que temos. Sem contar que, quando pensam em dividir o país, talvez imaginem que seja possível fazer isso sem uma guerra civil, pois quem, em sã consciência – ainda mais essas boas pessoas que são meus amigos! – escolheria a selvageria da guerra? Além disso, agora, torço para que a Dilma faça um bom governo. Espero que a oposição se organize e cumpra seu papel, evidentemente. Mas que não seja uma oposição destrutiva (do tipo que o PT faz tão “bem”, por sinal).

                Achei essa campanha eleitoral muito triste. Os candidatos falando o que as pesquisas dissessem que os eleitores queriam ouvir. Os eleitores empenhados em ataques pessoais entre si. Mensagens carregadas de muito preconceito entupindo nossa caixa postal. Quase nenhuma discussão verdadeiramente relevante. O Estadão resolveu se declarar abertamente partidário do Serra, o que considerei positivo, apenas para em seguida demitir a voz dissonante, o que me deu vontade de nunca mais ler aquele jornal. Uma coisa é declarar seu apoio a um candidato, o que é bom para que o leitor saiba que há viés na cobertura, outra coisa é acabar com o espaço para debate. Poderiam perfeitamente fazer uma crítica ao que escreveu a Maria Rita Kehl, mas demiti-la tornou ridícula toda a sua campanha pela liberdade de expressão. No balanço de tudo, me parece, a democracia saiu perdendo. Se a política continuar sendo um jogo onde o objetivo é o poder em si, que chance temos? E então há os meus amigos que dizem que as coisas são mesmo assim, nunca vão mudar, não vale a pena votar, nem pensar sobre o assunto. Você acha que finalmente estou de acordo com alguém? Engano: discordo desses também.

P.S. – Para aliviar, aqui vai o link para um texto com o qual concordo totalmente.



Escrito por Ana Mesquita às 19h16
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Sobre fantasias, crenças e convicções

                Cultivo algumas fantasias, crenças e convicções. O pó de pirlimlimpim é minha fantasia preferida. Para quem não se lembra ou não conhece, apresento: com pó de pirlimpimpim a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo ia para todo lado. Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa viajavam assim: juntavam-se, jogavam um pouquinho de pó sobre si mesmos, pensavam para onde queriam ir e diziam: pirlimpimpim! Pronto, chegaram. Mais fantástico que tele transporte. Desde criança, nunca deixei de fantasiar a possibilidade de estar onde bem entendesse num estalar de dedos. Hoje em dia, tendo pessoas queridas vivendo nos quatro cantos do planeta e sendo paulistana, com horror a congestionamento, fantasio mais do que nunca.

                Crenças não são o mesmo que fantasia. Quando acreditamos, mesmo não podendo provar a verdade ou a existência do fenômeno, estamos convencidos de que seja assim. No meu caso, acredito no sobrenatural, de alguma forma que ainda estou tentando decidir, vinte anos depois de desistir da religião que não religava coisa nenhuma. Acredito que somos seres espirituais, acima de tudo. E que há mais do que o que nossa pobre razão é capaz de explicar. São crenças, coisas que não me arriscaria discutir com ninguém, por falta de argumentos.

                Já convicções são crenças com mais força. Arrisco até entrar numa discussão pelas minhas, embora tenha poucas. Penso ter argumentos, mesmo que não consiga articulá-los muito bem. Por exemplo, acredito firmemente que a bondade existe. E não me venha com essa cara de quem me ouviu afirmar que acredito em Papai Noel. Eu vi a bondade. Então você vai me dizer: eu também já vi o Papai Noel uma porção de vezes. Meu filho tirou até foto no colo dele ano passado, num shopping center. Está bem. Serei obrigada a concordar que, algumas vezes, a bondade não passa de fantasia, não no sentido de sonho, mas no de roupagem, usada para dar aparência de ser o que não se é. Mesmo assim estou segura de que ela existe de verdade. Inclusive dentro de você, que duvida da existência dela. Ah, só duvida de que ela exista nos outros? Bem, nesse caso...



Escrito por Ana Mesquita às 13h15
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Feminismo

                Está fora de moda ser feminista. Para algumas pessoas o feminismo não faz mais sentido, já que as mulheres podem votar, presidir empresas e países, escolher se, quando e quantos filhos querem ter, casar com quem desejam, pedir divórcio se quiserem. Para outras, ele nunca fez, como para um machista conhecido meu, segundo quem “todo o feminismo acaba ao primeiro pneu furado”. Vou manifestar meu desacordo com uns e outros.

                Começando pelos últimos, devo reconhecer que alguns deles se enganam quanto ao feminismo, em parte, por culpa do próprio feminismo. Luta pela igualdade, não é? Será que isso inclui parecer homem, agir como homem, ter força física de homem? Entenderam assim aqueles que acreditam que o pneu furado acaba com o feminismo. Entendo diferente, então talvez devesse omitir que sei trocar pneu, furar a parede para instalar prateleiras e subo no telhado para limpar a placa do aquecedor solar. E que já me diverti um bocado à custa de homens que acham vergonhoso perder de mulheres, na época em que era boa nadadora. Não escondo, não. Porque me sinto mulher mesmo quando troco pneu (pulando na chave de roda, mas troco), furo a parede ou deixo algum marmanjo para trás na piscina. Não quero parecer homem. Não quero ser tão forte quanto eles. Não quero pensar como eles. Quero ter dignidade, sendo mulher, sem precisar imitá-los. Se acabei não precisando deles para algumas coisas, continuo precisando para outras, assim como acho evidente que eles precisam de nós em muitas ocasiões.

                 Então dizem que o feminismo perdeu o sentido. Quero evitar ir muito longe, falar da realidade de países da África e do Oriente Médio que conheço apenas através de livros e jornais. Não por achar que não tenho nada com isso – creio que somos todos uma só humanidade e a indiferença simplesmente não serve – mas porque nem seria preciso argumentar sobre a importância da luta pela emancipação feminina nos lugares onde meninas são proibidas de ir à escola, dadas em casamento ainda crianças, devem ser obedientes e submissas aos pais, irmãos e maridos. Ficando aqui pelo Brasil mesmo, acho que temos muito para conquistar. Algumas razões óbvias: somos sub-representadas no congresso. Ocupamos poucos cargos de chefia nas empresas. Ganhamos menos do que os homens para fazer o mesmo trabalho. Outras menos evidentes: ainda estamos aprendendo a ser femininas no mundo contemporâneo e nos vemos diante de dilemas que passam longe da realidade dos homens: impossível ignorar os conflitos entre maternidade e carreira, por exemplo. E aqui (também) percebemos que é bom ter escolha, mas nem sempre é fácil escolher.

                Enquanto cientistas tentam descobrir, entre as diferenças de gênero, o que é biológico e o que é socialmente determinado (e eu desconfio que eles não terão muito sucesso nessa empreitada), as mulheres vão tentando decidir até que ponto querem assumir os papéis sociais tipicamente masculinos, diante da dificuldade de abandonarem outros tipicamente femininos e da sobrecarga que isso representa. De minha parte, acredito que justo mesmo seria que as mulheres não apenas pudessem escolher, mas também que os papéis femininos fossem mais valorizados. Algumas coisas, é inegável, eles não podem mesmo fazer. Já falei aqui da pena que sinto por não poderem dar o seio. Alimentar o filho é bônus de ser mulher. E ônus também, pois ninguém ignora que as empresas detestam receber a notícia de que uma funcionária importante e difícil de substituir está grávida, no mínimo uma boa pista da razão de sermos menos valorizadas do que os homens no mercado de trabalho. E a maternidade não acaba quando termina o aleitamento – ou a licença – e então tantas mulheres se vêem no dilema de escolher entre sua independência financeira e a chance de acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos. Isso nas classes privilegiadas, onde existe opção. Outras realidades mais brutas se apresentam, nem precisamos olhar muito longe.

                Vou parar por enquanto, pois quanto mais penso, mais coisas pedem minha atenção. Talvez isso seja assunto para um livro, não para um texto de blog.



Escrito por Ana Mesquita às 10h25
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