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Um momento de simpatia pelo presidente
Acabo de ler mais um artigo a respeito da polêmica em torno da extradição de Cesare Batistti. No caso, a carta aberta de Bernard-Henri Lévy ao presidente Lula, publicada na Folha de hoje. E não gostaria de estar na pele do destinatário da missiva. Sou mesmo uma pessoa de opiniões algo voláteis. Sempre que ouço bons argumentos contra uma idéia que tenho, tendo a reconsiderá-la. Acontece com freqüência, por isso, de mudar de opinião depois de ouvir alguém que já pensou mais sobre o assunto e o compreende melhor do que eu. E não é raro que, ouvindo depois uma outra pessoa versada na matéria e que pensa diferente, volte a mudar de idéia. Em poucos casos, no entanto, tive tanta dificuldade em formar uma opinião quanto nesse do (terrorista? Refugiado político?) italiano. Verdade que certamente me faltam dados, conhecimento de causa, mas quando leio os argumentos que se colocam, tendo a concordar um pouco com cada lado. O homem foi condenado por assassinato e não por crimes políticos, dizem uns. Ele foi condenado à revelia, baseado em testemunha que fez delação premiada, e não terá direito à defesa em novo julgamento, rebatem outros. Minha conclusão: o Supremo jogou o abacaxi no colo do presidente. Eu que muito tenho me irritado nos últimos anos a cada vez que ouço o Lula dizer que não sabia de nada do que se faz de errado em seu governo e em seu partido, a cada vez que o vejo agir com incoerência ou falta de justiça, sinto-me subitamente compadecida dele. Simplesmente não queria ter a palavra final num caso desses. Talvez ele esteja simplesmente feliz com todo o seu poder e eu me compadeça à toa, mas de fato não queria estar em seu lugar.
Escrito por Ana Mesquita às 09h49
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A meta do presidente
Depois do anúncio da escolha do Rio de Janeiro como sede para os Jogos Olímpicos de 2016, nosso emocionado presidente declarou: a meta agora é transformar o Brasil em potência olímpica. Está cheio de gente questionando a viabilidade dessa meta. Por enquanto não vi ninguém questionar a validade dela. Eu quase acho o projeto mais viável do que válido. A China foi a primeira no quadro de medalhas de Pequim 2008. IDH: 92º. O Quênia (147º no IDH) ficou em 15º lugar nas olimpíadas. À frente da Noruega, que foi 21ª no quadro de medalhas e tem o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano, segundo a ONU. É possível tornar-se potência olímpica sem melhorar a distribuição de renda, a educação e a saúde pública. O destaque esportivo também pode prescindir da democracia, da liberdade de expressão e da liberdade de escolha. Ganhar uma baciada de medalhas olímpicas pode encher um povo de emoção e orgulho patriótico, mas não faz um país melhor. Há quem diga que o Brasil deve tomar a China como modelo. Depois de Seul, quando terminou os Jogos em 11º lugar no quadro de medalhas, implantou um programa de massificação esportiva e, quatro anos mais tarde, em Barcelona, saltou para a quarta posição. Mais dezesseis anos e foi a primeira em Pequim. Na natação, esporte que acompanho mais de perto, a China não teve sucesso tão crescente. Se até Seul nunca uma nadadora chinesa havia chegado a uma final olímpica, em Barcelona foram quatro medalhas de ouro. No mundial de Roma-94 o espanto cresceu: 12, das 16 medalhas de ouro em disputa foram para nadadoras chinesas. Então, meses mais tarde, nos Jogos Asiáticos, a equipe ruiu: 11 atletas caíram no antidoping. Se foi doping oficial nos moldes do da ex-Alemanha Oriental ou não é impossível dizer. Após o escândalo e em meio à campanha para sediar os Jogos de 2008, a China realizou grande esforço de provar-se limpa. A natação chinesa contentou-se com uma medalha de ouro em Pequim. Como brasileira, ex-atleta e apaixonada por esporte, prefiro que o Brasil não adote o modelo Chinês. Quero ver o Brasil no alto do pódio olímpico muitas vezes, mas como consequência da melhora de todos os nossos indicadores sociais. Quando todas as nossas crianças frequentarem boas escolas, forem bem alimentadas e tiverem oportunidade de participar de bons programas de iniciação esportiva em locais com estrutura adequada, sob orientação de bons profissionais, teremos boas chances de nos tornarmos uma potência esportiva. Se forjarem em nós o destaque olímpico que desejam sem que tenhamos nada disso, nem quero pensar em como o farão.
Escrito por Ana Mesquita às 10h46
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Rio 2016
O Brasil ganhou! Ganhou? Quando Lula criticou os que torcem contra o país, estava pensando em gente influente, com opinião no jornal que destoa do clima de festa. Também poderia estar falando de mim, pois não torci pela candidatura carioca, mas então estaria redondamente enganado. Não torço contra o Brasil, muito pelo contrário. O anúncio do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 coloriu Copacabana de patriotismo verde e amarelo. O povo ficou feliz. Acreditou que a Olimpíada pode mudar para melhor sua cidade e seu país, como prometeu Lula na apresentação da candidatura. Eu também desejo que o Brasil melhore e até acredito que a organização de um evento como esse pode colaborar, dar um impulso de desenvolvimento. Mas fico desanimada, sabendo do que aconteceu no Pan. E sabendo que outras pessoas que ficaram contentes com a vitória da candidatura carioca não têm a boa-fé do povo que festejou em Copacabana, apenas comemoram uma oportunidade de ouro para assaltar os cofres públicos, desviar muitos recursos, sem dar espaço para investigações e críticas, pois nessa ocasião a crítica é antipatriótica. Desejo estar errada. Quero crer que dessa vez será diferente. Que haverá seriedade e honestidade ao invés de superfaturamento. Que as instalações construídas não serão depois abandonadas, mas abertas à população como espaços públicos. Que não haverá maquiagem, mas verdadeira transformação social. Que o evento será de fato bem organizado e não seremos, outra vez, motivo de chacota para os estrangeiros. Entre os nadadores de longa distância, quando vinham para uma prova aqui no Brasil, nossa desorganização virou anedota. Se uma cerimônia era marcada para as oito da noite eles diziam: “oito horas, brazilian time, o que você acha? Talvez nove e meia? Pode mesmo ser que a Olimpíada nos ajude a superar isso, é o mínimo que espero. Ainda assim fico com a sensação de que os 100 milhões já gastos com a candidatura e os 29 bilhões previstos para fazer o projeto sair do papel poderiam ser melhor empregados.
Escrito por Ana Mesquita às 09h20
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Dez marchas
"Life is like a ten-speed bike. Most of us have gears we never use". (Charles M. Schulz) Outro dia topei com essa frase, e bateu com impacto. Então a coloquei no Facebook. Pouco depois a Alice comentou: “e eu que não sei andar de bicicleta, então, como fica?”. E a Marcella: “mas será que se a gente usar todas, dá tempo de viver?”. Verdade é que a Alice, mesmo que não saiba (ainda) andar de bicicleta, pedala sua vida usando muitas marchas, cheia de recursos e aproveitando bem. Assim como a Marcella, que conheço menos, mas logo se vê que faz o que seria impossível usando uma marcha só. O fato é que os comentários delas me fizeram parar para pensar mais um pouco na frase e no motivo que me levou prestar atenção nela e escrevê-la ali. Concluí que o fiz porque me sinto precisando experimentar outras marchas. Sinto-me numa ladeira como nunca estive e, evidentemente não tenho dado conta de seguir adiante usando as que sempre usei. Acho até que a situação atual pede equipamento mais moderno, vinte e quatro marchas, pelo menos! E uma descidinha para ajudar não seria nada mal, estou precisando de um fôlego. Então, surpresa boa, apareceu o comentário do Darlington: “that is what makes it all a mystery! Some use most of "em gears, others don't. The secret is; "AS LONG AS YOU LIVE, KEEP LEARNING HOW TO LIVE". Learn how to use all of "em, but wisely. TRICYCLE for Alice!!! Never too late to give it a whirl.” Pensei que a facilidade de comunicação, a possibilidade de troca, até com quem vive em outros continentes, deu mais marchas para as bicicletas de nossas vidas. But use it wisely... Numa bicicleta de 24 marchas, se você colocar a mais dura na subida, a mais mole na descida, melhor seria uma só. Vai ver estou assim, na marcha errada, mais do que numa subida impossível. De qualquer jeito, continuo querendo uma descida. Leve, para não me esborrachar lá embaixo, visto que a habilidade não está muita...
Escrito por Ana Mesquita às 08h31
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Convite

Escrito por Ana Mesquita às 07h52
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Esperado inesperado, ou surpresa boa!
Um evento esperado é previsível, sabido ou programado. Também pode ser algo que se deseja, ou objeto de esperança, ainda que injustificada, como quando está tudo dando errado, e alguém diz: “vai dar tudo certo, você vai ver” ao que respondemos: “assim espero”, apenas porque é o que gostaríamos, mas na verdade não temos quase esperança nenhuma. Quando acontece o inesperado, aquilo que não antevimos pode ser uma surpresa ruim: você não esperava que o carro quebrasse logo quando estava a caminho de um compromisso importante, não imaginava o acidente, não contava com a doença. Pelo menos para os otimistas, que estão sempre pensando que nada pode dar errado, são as surpresas mais comuns, ao contrário do que dizem alguns livros de auto-ajuda por aí. Porque as coisas realmente dão errado de vez em quando, não importa com que força se acredite no contrário. Mesmo assim, me parece que a surpresa está mais associada às coisas positivas. Deve ser por serem tão deliciosas as surpresas boas! Poderíamos dizer que são esperados eventos inesperados. Como, por exemplo, se um amigo muito querido que mora bem longe e você não vê há anos telefona e deixa um recado na secretária eletrônica: amanhã vou a São Paulo. Você esperava por isso. Queria. E também estava esperando há um tempão: tinha feito dezenas de convites. Sentia saudade. E, ao mesmo tempo, era totalmente inesperado, não estava marcado. Como diriam na minha terra, êta surpresa danada de boa!
Escrito por Ana Mesquita às 18h45
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O valor da tradição
Se o clube é centenário, o torcedor enche a boca para falar de sua tradição. Se a família é quatrocentona o moleque estufa o peito para dizer o sobrenome. E tem até empresa apregoando na propaganda dez anos de tradição (?) em servir bem. O antropólogo, fascinado com a exótica cultura de uma tribo isolada fala da importância de se preservar a tradição cultural daquele povo. E assim, o que é tradicional fica parecendo bom, ou no mínimo, importante. Verdade que o respeito às tradições anda tão démodé quanto dizer démodé. Mesmo assim, o que sempre foi tantas vezes carrega consigo a idéia de que deveria continuar a ser. E por que deveria? Apenas por que sempre foi? Aqui comigo, não considero motivo suficiente. Acho muito melhor repensar toda tradição a cada tanto. Pois tudo muda e o que fazia sentido (ou parecia fazer) ontem pode não continuar sensato hoje. Acontece, às vezes, ser difícil abrir mão de certas tradições, mesmo quando elas já não servem mais. A identidade cultural, por exemplo, está ligada a valores e costumes que são transmitidos de geração a geração. Lendo Dreams from My Father, do Obama, encontrei essa questão no momento em que ele visita o Quênia, em busca das próprias raízes. Uma ex-professora de história da irmã queniana do agora presidente norte-americano (que frase horrível!) diz: “às vezes penso que a pior coisa que o colonialismo fez foi turvar nossa visão do passado. Sem o homem branco, nós poderíamos ser capazes de fazer melhor uso da história. Poderíamos olhar para algumas de nossas práticas antigas e decidir que valiam à pena serem preservadas. Outras, poderíamos avançar deixando para trás. Infelizmente o homem branco nos colocou na defensiva. Acabamos nos apegando a todo tipo de coisas que já deixaram de ser úteis” (tradução mequetrefe minha). A situação mais complicada de todas é quando a tradição está ligada à religião. O religioso não apenas recusa-se a refletir sobre as questões que envolvem sua crença, mas costuma tornar-se mais agressivo que fera defendendo cria se algum desavisado propõe alguma de repente – especialmente se a questão fizer muito sentido. Chega a ser curioso quando defendem a tradição como se fosse um valor em si. Se você questionar sobre uma sociedade onde a escravidão, o canibalismo ou a opressão à mulher são tradicionais talvez ouça algo como: bem, a tradição às vezes é uma coisa boa, outras vezes não. Ficando assim demonstrado: a tradição não tem valor intrínseco.
Escrito por Ana Mesquita às 21h34
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Pizza na Roça

Vivo numa cidade cheia de boas pizzarias. Tem lugar com pizza boa e atendimento simpático. Tem lugar com pizza excelente e atendimento nenhum. Tem lugar aconchegante, tem lugar barulhento demais, tem decoração de gosto duvidoso e tem pizzaria bonitinha. Tem fila de espera de horas, tem música ao vivo de vez em quando, tem até pizzaria onde a redonda é quadrada. Tem massa de toda espessura, tem vinho barato vendido caro, tem pizza de verdura. Se tiver que escolher minha pizzaria predileta, vou passar dificuldade: gosto mais do atendimento de uma, do ambiente de outra, da pizza de uma terceira. A única que reúne simpatia imbatível, lugar lindo e agradável e pizza da melhor, tem só um defeitinho: fica a mais de trezentos quilômetros daqui. 
Falo da Pizza na Roça. Claro que não costumo sair daqui de São Paulo para comer pizza em Caconde, mas quando estou na casa da minha mãe, que é bem mais pertinho, adoro ir lá. O mais gostoso é no verão: passar o dia na represa e depois, no finalzinho da tarde, chegar à pizzaria quando ainda há luz – é tão bonito! – e comer com fome de quem nadou e esquiou. Mesmo no inverno ela ainda é minha pizzaria predileta. Sábado passado estivemos lá, numa mesa grande, como sempre. A pizza de abobrinha estava absurdamente gostosa, a de brócolis também. Das outras não comi, mas quem comeu adorou. E claro, teve a de chocolate, que quase todo mundo disse que não queria, mas quando chegou evaporou rapidinho. Cerveja no ponto, atendimento caprichado, a criançada brincando e jogando futebol, energia boa, um lugar para sentir-se bem. 
Se algum amigo paulistano quiser conhecer minha pizzaria favorita, vá passar um fim de semana em Caconde. Tem esportes mais ou menos radicais para quem gosta e a represa é uma delícia. No carnaval a cidade fica lotada, mas não vou dizer se é bom, porque nunca fui. E amigos rio-pardenses que ainda não foram, fiquem sabendo que estão perdendo tempo. Garanto que vale a viagem.
Escrito por Ana Mesquita às 15h36
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Bola cheia
Recebi um elogio público do Juca Kfouri no CBN Esporte Club. Estou insuportável! (Para ouvir, dê play sob "Contratação de Muricy Ramalho pelo Pameiras é a manchete do dia").
Escrito por Ana Mesquita às 10h18
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São João Del Rei

Gostei da cidade desde a chegada à estação. 
O nome de algumas pessoas é realmente próprio. Salvador serve muito bem para guias que fazem bem seu trabalho, em minha opinião. E era esse o nome do homem que nos guiou pelas ruas de São João Del Rei, mostrando lugares, contando histórias, atiçando a curiosidade e deixando a visita com gosto de quero-mais. Contou-nos a origem da expressão “sem eira nem beira”: as casas dos ricos tinham eira e beira (como essa da foto), as dos "remediados" tinham apenas eira e a dos pobres não tinha eira nem beira. Descobri então que eu desconhecia o significado correto: a pessoa sem eira nem beira é pobre, sem recurso e eu pensava que fosse algo como sem referência, meio perdida. Explicou-nos também de onde vem “nas coxas”: As telhas eram moldadas na coxa dos escravos. Como usavam vários escravos e suas coxas tinham diferentes medidas, as telhas ficavam irregulares e os telhados com goteiras. Por isso um trabalho mal-feito é um trabalho feito nas coxas.

Mostrou-nos o auto-retrato do artista em sua obra, escondido na pintura do teto da Igreja Nossa Senhora do Pilar. Do chão fica difícil perceber que há um rosto no manto do anjo, a foto bem facilita... 
Explicou-nos porque a Igreja de Nossa Senhora das Mercês ficou com apenas uma torre: as igrejas tinham que pagar impostos, mas apenas depois de prontas. Então, fizeram o projeto da igreja com duas torres e a deixaram “inacabada”, com uma torre só, para escapar do fisco. 
Falou-nos da obra de Aleijadinho na Igreja de São Francisco. A escultura da fachada representa o santo pedindo as chagas de Cristo. 
Levou-nos a uma fábrica de objetos em estanho. Gosto tanto de ver como as coisas são feitas! Parece que traz certa lógica ao mundo. São momentos de iluminação – então é assim! Acho absolutamente fascinante. 
Escrito por Ana Mesquita às 20h16
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Tiradentes - MG

Cidadezinha linda, Tiradentes. Ruas de pedra, casinhas coloridas, igrejas muitas, tudo de uma outra época. Bem cuidada, artistas e artesãos para todo lado, acolhedora, comida boa, um encanto. Mesmo na arte barroca, que – pura questão de gosto – não acho exatamente bonita, encontrei prazer. Fascínio pelas coisas antigas ou raras e as histórias que elas encerram. 
Coisa boa, caminhar. Andar só por andar. Ou em busca de uma vista bonita, uma paisagem diferente, uma flor, uma pedra. Vimos rochas a mais de mil metros de altura que pareciam do fundo do mar. Contou o guia que geólogos foram lá estudá-las e concluíram que aquela região pode ter sido oceano há mais tempo do que sou capaz de imaginar. 
Prestar atenção nas coisas, olhar e ver, não do jeito que andamos por aí todos os dias, distraídos. Tudo faz pensar. Por exemplo, a árvore que tombou, desenraizada. Qualquer um que passasse por ali depois da tempestade (terá sido uma tempestade?) a julgaria condenada à morte. Passei muito tempo depois, por isso atesto sua inacreditável capacidade de sobrevivência. 
O melhor de tudo: a Maria Fumaça. Vê-la chegar foi como entrar num túnel do tempo, passear nela como voltar a ser criança.  Adoro viajar. Não é incomum acontecer de eu ir embora de um lugar que gostei de conhecer pensando em tudo o que faltou ver, ou nas coisas que gostaria de ver de novo. Por fim, acabo concluindo que ainda há muitos lugares onde nunca fui para conhecer e prefiro não voltar, mas com Tiradentes acho que vai ser diferente, quero ir outra vez. PS – A Maria Fumaça nos levou à São João Del Rei. Depois coloco algumas fotos de lá também.
Escrito por Ana Mesquita às 14h50
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Na minha terra
(Ogata, esse aqui fiz na medida, sob encomenda, para você me perturbar.) Pomar, morro de grama, balanço, nostalgia. Porta aberta, criança, brincadeira, gritaria. Estrada de terra, seca, sol, poeira. Estrada de terra, chuva, barro, buraqueira. Cana, caminhão, moenda, açúcar quente. Natal, presépio, família, muita gente. Janeiro, rio, julho, riacho. Mangueira, laranjeira, bananeira, cacho. Lua cheia, noite clara, lua nova, noite estrelada. Sibipiruna, flamboyant, ipê, paineira. Outro rio, barragem, usina, corredeira. Casa grande, hortência, história, memória. Passagem secreta, palmeira centenária. Senzala, vontade de criar outra história. Mãe, Mem, doce de leite, culinária. Galo, galinha, ovo, angolinha Gato, gata caçadora, cachorrinha. Mato, cobra, onça, macaco. Cipó, avenca, samambaia, carrapato. Horta, cenoura, couve, alface. Panela grande, mesa enorme, feijão preto. Conversa, piada, riso, espeto. E um dito: à mesa não se envelhece.
Escrito por Ana Mesquita às 18h24
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Primeira vez
Dizem que tudo na vida tem uma primeira vez. Serve para muitas situações: o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro tombo, a primeira decepção, a primeira viagem sozinha, a primeira perda, o primeiro emprego, a primeira vitória, a primeira derrota. Não exatamente nessa ordem. É um ditado bobo, porque nem tudo tem que acontecer um dia com todos. Mesmo assim lembrei-me dele na última quinta-feira, quando, pela primeira vez, fui, doente, ao hospital. Já tinha ido como parturiente, doze anos atrás. Há menos tempo, precisei dar uns pontos no calcanhar depois que um banco me atingiu pelas costas. Ano passado torci o pé e precisei uma imobilização. Ir, doente, para o pronto-socorro, foi a primeira vez. Tive então mais uma medida de como é estar ficando velha. Não porque fiquei doente e precisei de hospital, pois tenho esperança de que isso não vá agora virar regra, não estou na idade de ser mau negócio para plano de saúde. O que me fez sentir velha foi olhar para a cara do médico e pensar: quem será esse moleque? E no instante seguinte, o moleque se apresenta como o doutor Rafael e te chama de senhora! E eu estava lá, esperando ansiosamente que a enfermeira viesse me dar um analgésico na veia, paciente impaciente, quando um sujeito, falando ao celular enquanto caminhava de um lado para o outro no corredor, dizia que estavam fazendo uma “topografia” na mulher. Coitado, eu sabia que a real preocupação dele não era que houvesse um médico empenhado em mapear minuciosamente o relevo do corpo da mulher, ali devia ser caso de acidente ou doença séria, mas a confusão de palavras foi muito engraçada, não deu para não rir. Minha ultra-sonografia não deu nada, diagnosticaram só uma infecção urinária muito furiosa. E manha, talvez, mas não escreveram no prontuário. Receitaram antibiótico, analgésico, dois dias de repouso e pude vir para casa. Salvo o parto, ainda não precisei da minha primeira internação. Vou torcendo para passar sem ela, pois, mesmo tendo sido muito bem atendida e saído de lá infinitamente melhor do que entrei, continuo não gostando de hospital. Bom mesmo é dar lucro para plano de saúde!
Escrito por Ana Mesquita às 12h39
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Mais lágrimas
Dessa vez, foi um escrito da Vivi.
Escrito por Ana Mesquita às 20h35
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Choro bom
Já ouvi muitas vezes que chorar é bom, desopila. Quem não ouviu? Você está lá numa tristeza que não tem fim, alguém vem consolar e diz: chora, chora que alivia. Tem também a música da Rita Lee: “Choro até secar a alma de toda mágoa, depois eu passo pra outra”. Acho a música ótima, mas não acredito nesse poder todo do choro de acabar com a mágoa de uma alma. E às vezes penso que chorar muito nos deixa com péssima aparência, olheiras, rosto abatido, o que não ajuda a melhorar. Aí uma roupa bonita, um batom e uns óculos escuros podem ser úteis. Não que eu seja de segurar lágrimas. Mesmo que quisesse, acho que não conseguiria, sou muito manteiga derretida. Já aconteceu até de me emocionar enquanto fotografava um casamento e não saber onde enfiar a cara. Choro não é tudo igual, no entanto. Tem choro triste, choro raivoso (o pior de todos), choro emocionado e até choro de alegria – esse sim bom de verdade! E foi esse choro bom, alegre e muito emocionado, que chorei ontem, como há tempo não fazia. Foi um texto da minha mãe. Quando ela me telefonou semana passada contando que começou a ler meu livro e não pode parar, tentou dormir, mas não conseguiu, voltou à leitura e só parou quando terminou, às duas da madrugada, eu já tinha sentido uma alegria incontida e uma lágrima escapou. Ontem, quando li a coluna que ela publicou no Jornal Democrata essa semana, aí então chorei bem chorado e já estou com os olhos marejados de novo, só de lembrar. O leitor pode estar pensando se não recebi nenhum elogio de pessoa mais isenta do que minha própria mãe para citar aqui. Psicólogos de plantão dirão logo que nada pode ser melhor do que a aprovação materna, não importa a idade da “criança”. E eu direi que quem conhece minha mãe, compreende o sono atrasado de décadas cuidando de bebês, sabe o quanto ela preza a autodiscliplina e a importância que dá para a verdade, vai entender muito bem que meu livro não poderia nunca receber melhor apologia.
Escrito por Ana Mesquita às 09h41
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