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Ufa!
O COB pediu desculpas à Katia Rubio e "autorizou" a publicação do livro "Esporte, Educação e Valores Olímpicos". Só restou mesmo a dúvida: eles precisavam autorizar?
Escrito por Ana Mesquita às 14h09
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O Mundo das pessoas apaixonadas por esportes está em polvorosa. Acontece que a pesquisadora e professora da USP, Katia Rúbio, foi notificada pelo COB a recolher das prateleiras seu mais recente livro, Esporte, Educação e Valores Olímpicos. Porque, imaginem vocês, os “termos ‘olímpico’, ‘olímpica’, ‘olimpíada’, ‘Jogos Olímpicos’ e suas variações… são de uso privativo do Comitê Olímpico Brasileiro no território brasileiro”(!), como alerta a notificação que ela recebeu. Eu sei, é difícil acreditar, mas a lei, ainda que afrontando a constituição, existe. Se você mora na Rua das Olimpíadas, cuidado ao preencher cadastros, você pode ser notificado. Atletas de ponta treinando duro, não nomeiem seu sonho. Gremistas, encontrem outro nome para seu estádio. Nadar em piscina olímpica, será que pode? Não deveria brincar, o assunto é sério. Trata-se, evidentemente, de um mecanismo de censura. Se um dissidente resolve falar ou escrever sobre o assunto, processo na certa. O que pretende o COB, com seu lobby poderoso, capaz de fazer passar tamanho absurdo pelo congresso nacional, senão calar toda crítica? Mas há momentos em que o que nos resta é acreditar na força de uma boa piada séria, se é que me compreendem, e a melhor que li sobre esse assunto foi a do Juca Kfouri em sua coluna na Folha: “Todas as vezes, doravante, que você ler aqui a palavra ‘nuzmância’ e suas derivadas, leia ‘olímpicos’ e suas derivadas, um cuidado que se impõe depois que o COB interpelou a psicóloga Katia Rubio, que escreveu um livro sob o título ‘Esporte, Educação e Valores Olímpicos’. Gol de escanteio, por exemplo, escreverei ‘gol núzmico’.” Já é tarde e preciso ir dormir. A piscina núzmica do Pinheiros me espera amanhã pela manhã. Se você ainda não está com sono, pode conferir alguns outros links sobre o assunto: Blog do Juca, Blog do Cruz, Blog do Alberto Murray Neto, Blog do Luis Nassif.
Escrito por Ana Mesquita às 00h09
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Renovação da esperança
Aí vem um ano novinho em folha. Que se renove o amor e a nossa capacidade de amar, que precisamos tanto dele! Que se renove a força, especialmente a interior, que se não sabe Deus – e deve saber, pois dizem que sabe tudo – sabemos nós o quanto precisamos dela. Que se renovem as velhas amizades, que nada há mais precioso que um bom amigo. E, com sorte, que tenhamos pelos menos um amigo novo quando o ano ficar velho. Que se renove a alegria pelos prazeres simples da vida. Que se renove nossa determinação de sermos pessoas melhores. Que se renove nossa capacidade de ver e apreciar o que há de belo na vida e no mundo. Que se renove a tolerância e que onde ela simplesmente não existe para poder renovar-se, que floresça. Que se renovem nossos melhores sonhos e que a busca por eles valha a pena. Que se renove nossa capacidade de ajudar e de receber a ajuda que nos oferecem. Quanto à esperança, já está renovada. Foi dela que nasceu esse texto.
Escrito por Ana Mesquita às 21h04
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Uma enorme alegria e uma decepção. Simultâneas.
César Cielo é o nadador mais rápido do mundo. Bateu nessa manhã o recorde mundial dos 50m livre, coroando um biênio de conquistas espetaculares. Campeão Olímpico em Pequim. Duas medalhas de ouro e o recorde mundial dos 100m livre em Roma. E agora, nadando aqui mesmo no Pinheiros, o recorde mundial dos 50m livre! E aí vem a minha decepção. Ele nadou na piscina que é quase uma segunda casa para mim. Tantos quilômetros já nadei ali, tanto azulejo contado, objetos achados no fundo da piscina, braçadas entre risos e lágrimas, entre força e exaustão, entre decepção e euforia. Ali encontrei amigos verdadeiros, gente que admiro e quero bem. E fui em busca de mim mesma, uma busca que segue, mas naquela piscina trilhei um caminho importante. Quinze anos atrás cheguei até a nadar dez horas seguidas numa daquelas raias. No entanto, justo hoje eu não estava lá para presenciar a façanha. Queria tanto ter visto! Mais ainda, queria ser jornalista esportiva para fazer todas as perguntas que jornalista nenhum faz (mas se eu fosse, será que faria?). E estava... no carro. Que tinha quebrado e eu tinha deixado ontem na oficina. Hoje cedo, quando fui buscar, pensei: vou direto para o Pinheiros, quem sabe ainda dá tempo de ver o recorde do Cielo, pois eu tinha enorme certeza de que viria. Mas liguei o rádio na CBN e ouvi a notícia no caminho. Tão estranho, ouvir uma notícia como essa no mesmo tom de voz que o locutor acabara de usar para noticiar a variação cambial. Justo eu que comemorei tanto a conquista dele em Pequim que minha filha, quase assustada, perguntou: “mãe, o que é isso, o que aconteceu com você? Nunca te vi assim!” (Depois, no mundial, ela já estava mais acostumada...)
No mínimo incomum: durante esses seis meses em que o Cielo está treinando aqui no Brasil, cruzamos com ele a toda hora lá no Clube. Um amigo da minha filha já tem quatro autógrafos dele (não me pergunte por que alguém poderia querer quatro autógrafos da mesma pessoa...). Você sobe para a piscina e lá está treinando o maior velocista do mundo. Já o vi quando estava passando em frente à lanchonete do boliche, caminhando em direção ao centro esportivo, no deck da piscina externa. E me pergunto: como pode esse homem que parece tão humano, afinal, ser capaz de nadar 50 metros em menos de 21 segundos?! Eu mesma tive meu momento de tietagem. Estava fotografando uma reunião de esportistas aquáticos que representaram o Clube nas décadas de 50 e 60. Era o comecinho da festa e, por acaso, o Cielo passou por ali. Alguns nadadores pediram para tirar uma foto com ele e aproveitei para perguntar se não queria um exemplar do meu livro. Ele aceitou o presente, que dei com dedicatória – um autógrafo às avessas, que é quando o admirador autografa para o admirado. E também pedi uma foto, que tirei esticando o braço e virando a lente em nossa direção. Saiu horrível, claro, mas ficou registrado. 
PS – Nessa mesma reunião repleta de gente extraordinária (nos anos 50 e 60 o Pinheiros já tinha a nata dos nadadores, saltadores e jogadores de pólo aquático do Brasil), ainda tive a honra de fotografar Manoel dos Santos, que também foi recordista mundial de 100m livre. Não resisti e, a certa altura, também pedi para tirar uma foto com ele. 
Escrito por Ana Mesquita às 15h05
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Um momento de simpatia pelo presidente
Acabo de ler mais um artigo a respeito da polêmica em torno da extradição de Cesare Batistti. No caso, a carta aberta de Bernard-Henri Lévy ao presidente Lula, publicada na Folha de hoje. E não gostaria de estar na pele do destinatário da missiva. Sou mesmo uma pessoa de opiniões algo voláteis. Sempre que ouço bons argumentos contra uma idéia que tenho, tendo a reconsiderá-la. Acontece com freqüência, por isso, de mudar de opinião depois de ouvir alguém que já pensou mais sobre o assunto e o compreende melhor do que eu. E não é raro que, ouvindo depois uma outra pessoa versada na matéria e que pensa diferente, volte a mudar de idéia. Em poucos casos, no entanto, tive tanta dificuldade em formar uma opinião quanto nesse do (terrorista? Refugiado político?) italiano. Verdade que certamente me faltam dados, conhecimento de causa, mas quando leio os argumentos que se colocam, tendo a concordar um pouco com cada lado. O homem foi condenado por assassinato e não por crimes políticos, dizem uns. Ele foi condenado à revelia, baseado em testemunha que fez delação premiada, e não terá direito à defesa em novo julgamento, rebatem outros. Minha conclusão: o Supremo jogou o abacaxi no colo do presidente. Eu que muito tenho me irritado nos últimos anos a cada vez que ouço o Lula dizer que não sabia de nada do que se faz de errado em seu governo e em seu partido, a cada vez que o vejo agir com incoerência ou falta de justiça, sinto-me subitamente compadecida dele. Simplesmente não queria ter a palavra final num caso desses. Talvez ele esteja simplesmente feliz com todo o seu poder e eu me compadeça à toa, mas de fato não queria estar em seu lugar.
Escrito por Ana Mesquita às 09h49
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A meta do presidente
Depois do anúncio da escolha do Rio de Janeiro como sede para os Jogos Olímpicos de 2016, nosso emocionado presidente declarou: a meta agora é transformar o Brasil em potência olímpica. Está cheio de gente questionando a viabilidade dessa meta. Por enquanto não vi ninguém questionar a validade dela. Eu quase acho o projeto mais viável do que válido. A China foi a primeira no quadro de medalhas de Pequim 2008. IDH: 92º. O Quênia (147º no IDH) ficou em 15º lugar nas olimpíadas. À frente da Noruega, que foi 21ª no quadro de medalhas e tem o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano, segundo a ONU. É possível tornar-se potência olímpica sem melhorar a distribuição de renda, a educação e a saúde pública. O destaque esportivo também pode prescindir da democracia, da liberdade de expressão e da liberdade de escolha. Ganhar uma baciada de medalhas olímpicas pode encher um povo de emoção e orgulho patriótico, mas não faz um país melhor. Há quem diga que o Brasil deve tomar a China como modelo. Depois de Seul, quando terminou os Jogos em 11º lugar no quadro de medalhas, implantou um programa de massificação esportiva e, quatro anos mais tarde, em Barcelona, saltou para a quarta posição. Mais dezesseis anos e foi a primeira em Pequim. Na natação, esporte que acompanho mais de perto, a China não teve sucesso tão crescente. Se até Seul nunca uma nadadora chinesa havia chegado a uma final olímpica, em Barcelona foram quatro medalhas de ouro. No mundial de Roma-94 o espanto cresceu: 12, das 16 medalhas de ouro em disputa foram para nadadoras chinesas. Então, meses mais tarde, nos Jogos Asiáticos, a equipe ruiu: 11 atletas caíram no antidoping. Se foi doping oficial nos moldes do da ex-Alemanha Oriental ou não é impossível dizer. Após o escândalo e em meio à campanha para sediar os Jogos de 2008, a China realizou grande esforço de provar-se limpa. A natação chinesa contentou-se com uma medalha de ouro em Pequim. Como brasileira, ex-atleta e apaixonada por esporte, prefiro que o Brasil não adote o modelo Chinês. Quero ver o Brasil no alto do pódio olímpico muitas vezes, mas como consequência da melhora de todos os nossos indicadores sociais. Quando todas as nossas crianças frequentarem boas escolas, forem bem alimentadas e tiverem oportunidade de participar de bons programas de iniciação esportiva em locais com estrutura adequada, sob orientação de bons profissionais, teremos boas chances de nos tornarmos uma potência esportiva. Se forjarem em nós o destaque olímpico que desejam sem que tenhamos nada disso, nem quero pensar em como o farão.
Escrito por Ana Mesquita às 10h46
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Rio 2016
O Brasil ganhou! Ganhou? Quando Lula criticou os que torcem contra o país, estava pensando em gente influente, com opinião no jornal que destoa do clima de festa. Também poderia estar falando de mim, pois não torci pela candidatura carioca, mas então estaria redondamente enganado. Não torço contra o Brasil, muito pelo contrário. O anúncio do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 coloriu Copacabana de patriotismo verde e amarelo. O povo ficou feliz. Acreditou que a Olimpíada pode mudar para melhor sua cidade e seu país, como prometeu Lula na apresentação da candidatura. Eu também desejo que o Brasil melhore e até acredito que a organização de um evento como esse pode colaborar, dar um impulso de desenvolvimento. Mas fico desanimada, sabendo do que aconteceu no Pan. E sabendo que outras pessoas que ficaram contentes com a vitória da candidatura carioca não têm a boa-fé do povo que festejou em Copacabana, apenas comemoram uma oportunidade de ouro para assaltar os cofres públicos, desviar muitos recursos, sem dar espaço para investigações e críticas, pois nessa ocasião a crítica é antipatriótica. Desejo estar errada. Quero crer que dessa vez será diferente. Que haverá seriedade e honestidade ao invés de superfaturamento. Que as instalações construídas não serão depois abandonadas, mas abertas à população como espaços públicos. Que não haverá maquiagem, mas verdadeira transformação social. Que o evento será de fato bem organizado e não seremos, outra vez, motivo de chacota para os estrangeiros. Entre os nadadores de longa distância, quando vinham para uma prova aqui no Brasil, nossa desorganização virou anedota. Se uma cerimônia era marcada para as oito da noite eles diziam: “oito horas, brazilian time, o que você acha? Talvez nove e meia? Pode mesmo ser que a Olimpíada nos ajude a superar isso, é o mínimo que espero. Ainda assim fico com a sensação de que os 100 milhões já gastos com a candidatura e os 29 bilhões previstos para fazer o projeto sair do papel poderiam ser melhor empregados.
Escrito por Ana Mesquita às 09h20
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Dez marchas
"Life is like a ten-speed bike. Most of us have gears we never use". (Charles M. Schulz) Outro dia topei com essa frase, e bateu com impacto. Então a coloquei no Facebook. Pouco depois a Alice comentou: “e eu que não sei andar de bicicleta, então, como fica?”. E a Marcella: “mas será que se a gente usar todas, dá tempo de viver?”. Verdade é que a Alice, mesmo que não saiba (ainda) andar de bicicleta, pedala sua vida usando muitas marchas, cheia de recursos e aproveitando bem. Assim como a Marcella, que conheço menos, mas logo se vê que faz o que seria impossível usando uma marcha só. O fato é que os comentários delas me fizeram parar para pensar mais um pouco na frase e no motivo que me levou prestar atenção nela e escrevê-la ali. Concluí que o fiz porque me sinto precisando experimentar outras marchas. Sinto-me numa ladeira como nunca estive e, evidentemente não tenho dado conta de seguir adiante usando as que sempre usei. Acho até que a situação atual pede equipamento mais moderno, vinte e quatro marchas, pelo menos! E uma descidinha para ajudar não seria nada mal, estou precisando de um fôlego. Então, surpresa boa, apareceu o comentário do Darlington: “that is what makes it all a mystery! Some use most of "em gears, others don't. The secret is; "AS LONG AS YOU LIVE, KEEP LEARNING HOW TO LIVE". Learn how to use all of "em, but wisely. TRICYCLE for Alice!!! Never too late to give it a whirl.” Pensei que a facilidade de comunicação, a possibilidade de troca, até com quem vive em outros continentes, deu mais marchas para as bicicletas de nossas vidas. But use it wisely... Numa bicicleta de 24 marchas, se você colocar a mais dura na subida, a mais mole na descida, melhor seria uma só. Vai ver estou assim, na marcha errada, mais do que numa subida impossível. De qualquer jeito, continuo querendo uma descida. Leve, para não me esborrachar lá embaixo, visto que a habilidade não está muita...
Escrito por Ana Mesquita às 08h31
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Convite

Escrito por Ana Mesquita às 07h52
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Esperado inesperado, ou surpresa boa!
Um evento esperado é previsível, sabido ou programado. Também pode ser algo que se deseja, ou objeto de esperança, ainda que injustificada, como quando está tudo dando errado, e alguém diz: “vai dar tudo certo, você vai ver” ao que respondemos: “assim espero”, apenas porque é o que gostaríamos, mas na verdade não temos quase esperança nenhuma. Quando acontece o inesperado, aquilo que não antevimos pode ser uma surpresa ruim: você não esperava que o carro quebrasse logo quando estava a caminho de um compromisso importante, não imaginava o acidente, não contava com a doença. Pelo menos para os otimistas, que estão sempre pensando que nada pode dar errado, são as surpresas mais comuns, ao contrário do que dizem alguns livros de auto-ajuda por aí. Porque as coisas realmente dão errado de vez em quando, não importa com que força se acredite no contrário. Mesmo assim, me parece que a surpresa está mais associada às coisas positivas. Deve ser por serem tão deliciosas as surpresas boas! Poderíamos dizer que são esperados eventos inesperados. Como, por exemplo, se um amigo muito querido que mora bem longe e você não vê há anos telefona e deixa um recado na secretária eletrônica: amanhã vou a São Paulo. Você esperava por isso. Queria. E também estava esperando há um tempão: tinha feito dezenas de convites. Sentia saudade. E, ao mesmo tempo, era totalmente inesperado, não estava marcado. Como diriam na minha terra, êta surpresa danada de boa!
Escrito por Ana Mesquita às 18h45
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O valor da tradição
Se o clube é centenário, o torcedor enche a boca para falar de sua tradição. Se a família é quatrocentona o moleque estufa o peito para dizer o sobrenome. E tem até empresa apregoando na propaganda dez anos de tradição (?) em servir bem. O antropólogo, fascinado com a exótica cultura de uma tribo isolada fala da importância de se preservar a tradição cultural daquele povo. E assim, o que é tradicional fica parecendo bom, ou no mínimo, importante. Verdade que o respeito às tradições anda tão démodé quanto dizer démodé. Mesmo assim, o que sempre foi tantas vezes carrega consigo a idéia de que deveria continuar a ser. E por que deveria? Apenas por que sempre foi? Aqui comigo, não considero motivo suficiente. Acho muito melhor repensar toda tradição a cada tanto. Pois tudo muda e o que fazia sentido (ou parecia fazer) ontem pode não continuar sensato hoje. Acontece, às vezes, ser difícil abrir mão de certas tradições, mesmo quando elas já não servem mais. A identidade cultural, por exemplo, está ligada a valores e costumes que são transmitidos de geração a geração. Lendo Dreams from My Father, do Obama, encontrei essa questão no momento em que ele visita o Quênia, em busca das próprias raízes. Uma ex-professora de história da irmã queniana do agora presidente norte-americano (que frase horrível!) diz: “às vezes penso que a pior coisa que o colonialismo fez foi turvar nossa visão do passado. Sem o homem branco, nós poderíamos ser capazes de fazer melhor uso da história. Poderíamos olhar para algumas de nossas práticas antigas e decidir que valiam à pena serem preservadas. Outras, poderíamos avançar deixando para trás. Infelizmente o homem branco nos colocou na defensiva. Acabamos nos apegando a todo tipo de coisas que já deixaram de ser úteis” (tradução mequetrefe minha). A situação mais complicada de todas é quando a tradição está ligada à religião. O religioso não apenas recusa-se a refletir sobre as questões que envolvem sua crença, mas costuma tornar-se mais agressivo que fera defendendo cria se algum desavisado propõe alguma de repente – especialmente se a questão fizer muito sentido. Chega a ser curioso quando defendem a tradição como se fosse um valor em si. Se você questionar sobre uma sociedade onde a escravidão, o canibalismo ou a opressão à mulher são tradicionais talvez ouça algo como: bem, a tradição às vezes é uma coisa boa, outras vezes não. Ficando assim demonstrado: a tradição não tem valor intrínseco.
Escrito por Ana Mesquita às 21h34
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Pizza na Roça

Vivo numa cidade cheia de boas pizzarias. Tem lugar com pizza boa e atendimento simpático. Tem lugar com pizza excelente e atendimento nenhum. Tem lugar aconchegante, tem lugar barulhento demais, tem decoração de gosto duvidoso e tem pizzaria bonitinha. Tem fila de espera de horas, tem música ao vivo de vez em quando, tem até pizzaria onde a redonda é quadrada. Tem massa de toda espessura, tem vinho barato vendido caro, tem pizza de verdura. Se tiver que escolher minha pizzaria predileta, vou passar dificuldade: gosto mais do atendimento de uma, do ambiente de outra, da pizza de uma terceira. A única que reúne simpatia imbatível, lugar lindo e agradável e pizza da melhor, tem só um defeitinho: fica a mais de trezentos quilômetros daqui. 
Falo da Pizza na Roça. Claro que não costumo sair daqui de São Paulo para comer pizza em Caconde, mas quando estou na casa da minha mãe, que é bem mais pertinho, adoro ir lá. O mais gostoso é no verão: passar o dia na represa e depois, no finalzinho da tarde, chegar à pizzaria quando ainda há luz – é tão bonito! – e comer com fome de quem nadou e esquiou. Mesmo no inverno ela ainda é minha pizzaria predileta. Sábado passado estivemos lá, numa mesa grande, como sempre. A pizza de abobrinha estava absurdamente gostosa, a de brócolis também. Das outras não comi, mas quem comeu adorou. E claro, teve a de chocolate, que quase todo mundo disse que não queria, mas quando chegou evaporou rapidinho. Cerveja no ponto, atendimento caprichado, a criançada brincando e jogando futebol, energia boa, um lugar para sentir-se bem. 
Se algum amigo paulistano quiser conhecer minha pizzaria favorita, vá passar um fim de semana em Caconde. Tem esportes mais ou menos radicais para quem gosta e a represa é uma delícia. No carnaval a cidade fica lotada, mas não vou dizer se é bom, porque nunca fui. E amigos rio-pardenses que ainda não foram, fiquem sabendo que estão perdendo tempo. Garanto que vale a viagem.
Escrito por Ana Mesquita às 15h36
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Bola cheia
Recebi um elogio público do Juca Kfouri no CBN Esporte Club. Estou insuportável! (Para ouvir, dê play sob "Contratação de Muricy Ramalho pelo Pameiras é a manchete do dia").
Escrito por Ana Mesquita às 10h18
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São João Del Rei

Gostei da cidade desde a chegada à estação. 
O nome de algumas pessoas é realmente próprio. Salvador serve muito bem para guias que fazem bem seu trabalho, em minha opinião. E era esse o nome do homem que nos guiou pelas ruas de São João Del Rei, mostrando lugares, contando histórias, atiçando a curiosidade e deixando a visita com gosto de quero-mais. Contou-nos a origem da expressão “sem eira nem beira”: as casas dos ricos tinham eira e beira (como essa da foto), as dos "remediados" tinham apenas eira e a dos pobres não tinha eira nem beira. Descobri então que eu desconhecia o significado correto: a pessoa sem eira nem beira é pobre, sem recurso e eu pensava que fosse algo como sem referência, meio perdida. Explicou-nos também de onde vem “nas coxas”: As telhas eram moldadas na coxa dos escravos. Como usavam vários escravos e suas coxas tinham diferentes medidas, as telhas ficavam irregulares e os telhados com goteiras. Por isso um trabalho mal-feito é um trabalho feito nas coxas.

Mostrou-nos o auto-retrato do artista em sua obra, escondido na pintura do teto da Igreja Nossa Senhora do Pilar. Do chão fica difícil perceber que há um rosto no manto do anjo, a foto bem facilita... 
Explicou-nos porque a Igreja de Nossa Senhora das Mercês ficou com apenas uma torre: as igrejas tinham que pagar impostos, mas apenas depois de prontas. Então, fizeram o projeto da igreja com duas torres e a deixaram “inacabada”, com uma torre só, para escapar do fisco. 
Falou-nos da obra de Aleijadinho na Igreja de São Francisco. A escultura da fachada representa o santo pedindo as chagas de Cristo. 
Levou-nos a uma fábrica de objetos em estanho. Gosto tanto de ver como as coisas são feitas! Parece que traz certa lógica ao mundo. São momentos de iluminação – então é assim! Acho absolutamente fascinante. 
Escrito por Ana Mesquita às 20h16
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Tiradentes - MG

Cidadezinha linda, Tiradentes. Ruas de pedra, casinhas coloridas, igrejas muitas, tudo de uma outra época. Bem cuidada, artistas e artesãos para todo lado, acolhedora, comida boa, um encanto. Mesmo na arte barroca, que – pura questão de gosto – não acho exatamente bonita, encontrei prazer. Fascínio pelas coisas antigas ou raras e as histórias que elas encerram. 
Coisa boa, caminhar. Andar só por andar. Ou em busca de uma vista bonita, uma paisagem diferente, uma flor, uma pedra. Vimos rochas a mais de mil metros de altura que pareciam do fundo do mar. Contou o guia que geólogos foram lá estudá-las e concluíram que aquela região pode ter sido oceano há mais tempo do que sou capaz de imaginar. 
Prestar atenção nas coisas, olhar e ver, não do jeito que andamos por aí todos os dias, distraídos. Tudo faz pensar. Por exemplo, a árvore que tombou, desenraizada. Qualquer um que passasse por ali depois da tempestade (terá sido uma tempestade?) a julgaria condenada à morte. Passei muito tempo depois, por isso atesto sua inacreditável capacidade de sobrevivência. 
O melhor de tudo: a Maria Fumaça. Vê-la chegar foi como entrar num túnel do tempo, passear nela como voltar a ser criança.  Adoro viajar. Não é incomum acontecer de eu ir embora de um lugar que gostei de conhecer pensando em tudo o que faltou ver, ou nas coisas que gostaria de ver de novo. Por fim, acabo concluindo que ainda há muitos lugares onde nunca fui para conhecer e prefiro não voltar, mas com Tiradentes acho que vai ser diferente, quero ir outra vez. PS – A Maria Fumaça nos levou à São João Del Rei. Depois coloco algumas fotos de lá também.
Escrito por Ana Mesquita às 14h50
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